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quarta-feira, 22 de março de 2017 0 comentários

SOLIDÃO A DOIS





Sobre uma geração que insiste em não ouvir, em não falar e em não aprender


Com sorrisos cada vez mais raros e sem poder de contagiar; com impaciência ao invés de brincadeiras e um torturante silêncio onde deveriam existir palavras e palavras, cada vez mais pessoas vivenciam a solidão a dois, termo que ouvi pela primeira vez na voz de Cazuza, em “Eu queria ter uma bomba”, música do Barão Vermelho.

São olhares vazios, pensamentos dispersos e uma sensação enorme de “tanto faz”. Na mesa do restaurante, o casal insiste em prestar atenção exclusivamente às telas de seus celulares; enquanto caminham, nenhuma palavra sai de seus lábios, e na despedida um beijo frio. No sexo, por não exigir diálogo, as coisas fluem um pouco melhor. Mas ainda assim é insuficiente.

O relacionamento, contudo, é mantido. Talvez por conveniência ou talvez porque essa realidade basta. Existem pessoas que se contentam com o básico e outras que temem a solidão mais do que qualquer outra coisa. Elas não percebem, porém, que estão sozinhas, apesar de terem uma companhia.

Parece contraditório, mas não é. Soa como se as pessoas, com medo da solidão, resolvessem ficar sozinhas juntas. Assim é formada uma multidão de almas vazias, de corações partidos e mentes desencontradas.

Elas se sentem perdidas da mesma forma. Estão a sós com seus pensamentos, embora segurem uma mão. Sonham acordadas, mas preferem não falar sobre isso. Passam horas tentando saber porque aquelas pessoas malucas escrevem poemas e canções.

Ficam inconformadas por aqueles que dizem que até o céu muda de cor quando estão amando. "Porra, o céu é azul. Sempre foi e sempre será", concluem. Mas é mentira. O céu é da cor que querem aqueles que não sentem uma solidão esmagadora, estejam acompanhados ou não.

E assim assistimos relacionamentos começando e terminando dia após dia. Não haveria problema nenhum nisso, afinal, nossa existência é efêmera, e somos feitos de dúvidas e erros.

O problema é assistir o seu relacionamento começar e acabar e ainda assim não aprender nada de valioso com ele. E sabe por que não? Porque vocês não estavam juntos. Apenas estavam sozinhos no mesmo lugar.

Bruno Inácio
quinta-feira, 10 de maio de 2012 0 comentários

Retrato de Claudia parte 7




Os dias foram passando e volta e meia Claudia ouvia falar da tal Jaqueline. Essa insistia em denuncia o golpe sofrido e outros absurdos que ocorriam no partido, como: favorecimentos escusos e desvios de verba publica.
Todos conheciam os fatos, mas ninguém se importava. Muito menos Claudia.
“Onde se viu uma negrinha exigindo ética. Deve ser alguma piada.
Minha querida você é negra não merece moral, ética. Coloque-se no seu lugar. Quanta petulância.”
As denuncia feitas por Jaqueline avolumavam-se, ganhavam notoriedade pública. A mocinha tornou-se um problema para o partido. Era preciso fazê-la calar. Para isso várias tentativas foram feitas sem grandes êxitos.
Jaqueline nos seus 20 e poucos anos, mesmo estando em situação claramente desfavorável, principalmente por ser pobre e negra, não se deixava intimidar. Mesmo quando ameaçada de morte não se calou, continuou exigindo justiça.
Claudia não estava acostumada com aquilo. Em todo o seu tempo de política não viu nada igual.
Tentaram encontrar qualquer coisa que vinhe-se a desmoralizar Jaqueline. Ficha criminal, alguma situação onde ela tirou vantagem de alguém. Ligação com lavagem de dinheiro. Qualquer coisa que pudesse ser usado contra ela. Não se encontravam absolutamente nada.
Tem de haver alguma coisa. Todos que estão na política estão na sujeira por mais que tentem esconder, mas de Jaqueline não encontravam nada. E essa não se calava.
Dada a proporção do problema não era mais possível iguinora os apelos da moça, então, os dirigentes estaduais e municipais do partido decidiram montar uma comissão que receberia Jaqueline com o pretexto de acatar a suas denuncias e instalar uma investigação sobre aquilo que a muito tempo era de conhecimento de todos.
No entanto a verdadeira intenção dessa comissão era arrumar alguma forma de incriminar ou desmoralizar Jaqueline. De preferência algo que justifica-se uma expulsão do partido da forma mais vexatória possível.
Claudia por ser mulher e negra era Vital, para fazer Jaqueline se sentir a vontade e não desconfiar das verdadeiras intenções daquele grupo de extermínio. Aquilo já tinha ido longe demais. Se depende-se do empenho de Claudia a neguinha iria se arrepender do dia em que tinha nascido. Passou a ser uma questão pessoal.
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