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quarta-feira, 26 de novembro de 2014 0 comentários

A ARTE DE SUPRIMIR



Estava lendo uma longa entrevista com o escritor argentino Julio Cortázar e deparei com sua inspirada declaração sobre “literatura com franjas”, que é aquela cheia de rococós desnecessários. Segundo ele, escritor bom é escritor que se dedica a limpar o texto até chegar a uma estrutura medular. Por isso é tão importante não se dar por satisfeito e reescrever quantas vezes for preciso (para mim, atualmente, tem sido a melhor parte do ofício).

É quando temos aquele monte de palavras na nossa frente e começamos a depurar, polir, retirar tudo o que não agrega, tudo o que não serve. Não raro, é um processo dolorido, pois costumamos nos apegar a uma determinada frase ou a alguma gracinha, mas não devemos mantê-la apenas por capricho: ela pode distrair o leitor e interromper o ritmo da leitura.

É preciso severidade consigo próprio, desapegar daquilo que, mesmo que nos apaixone, compromete o resultado final. Diz Cortázar, e eu humildemente endosso: “Quando corrijo, só uma vez em 100 acrescento algo. Nas outras 99, corrigir consiste em suprimir.

Leia todas as colunas de Martha Medeiros

Qualquer um que veja um rascunho meu pode comprovar isso: muito poucos acréscimos e enormes supressões”.Faxinar é uma arte. Vale para textos, armários, gavetas, e também para manias, lembranças, rancores.

A maturidade tem muitas vantagens, entre elas a de deixarmos de ser tão sentimentais com nosso passado e promovermos um arrastão em tudo o que é excessivo. Não há mais tempo para delongas: uma vez conhecendo melhor a nós mesmos, hora de priorizar
a essência – a nossa e a de tudo.

O que não impede que pessoas mais jovens comecem a se habituar desde cedo a não colecionar inutilidades, como amigos falsos, preconceitos e dramalhões. Hoje, considera-se rico aquele que tem 1 milhão de seguidores no Twitter e curtidas no Face, ou aquele que acredita que um sem-número de sapatos, bolsas e tênis acalmará sua ansiedade, afugentando o vazio.

Será mesmo preciso gastar metade da vida até perder essa ilusão? O que nos dignifica não é um guarda-roupa abarrotado ou uma cabeça lotada de neuras. Simplificar, ao contrário do que se pensa, nunca foi provinciano, e sim um luxo que poucos conseguem bancar.

Acumular é que é provinciano. Nem mesmo quando relaciono esse verbo a afeto e dinheiro consigo dar a ele algum crédito, pois acúmulo nada tem a ver com suficiência. Se temos afeto e dinheiro suficientes para viver bem, com paz, conforto e alegria, para que correr atrás de mais e mais? O excesso pode conspirar contra, nos exigindo um esforço extra para manter a roda girando. O suficiente faz a roda girar sozinha.

Tempo esgotado, hora de enviar o texto para o jornal. Desconfio que ele segue com algumas franjas, mas prometo apará-las numa próxima versão.

MARTHA MEDEIROS
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014 0 comentários

FICA O DITO PELO NÃO DITO





o poema
antes de escrito
não é em mim
mais que um aflito
silêncio
ante a página em branco


ou melhor
um rumor
branco
ou um grito
que estanco
já que
o poeta
que grita
erra
e como se sabe
bom poeta(ou cabrito)
não berra

o poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer
e que
por não ter sido dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer

mas
dizer o quê?
dizer
olor de fruta
cheiro de jasmim?

mas
como dizê-lo
embora o diga de algum modo
pois não calo

por isso que
embora sem dizê-lo
falo:
falo do cheiro
da fruta
do cheiro
do cabelo
do andar
do galo
no quintal

e os digo
sem dizê-los
bem ou mal

se a fruta
não cheira
no poema
nem do galo
nele
o cantar se ouve
pode o leitor
ouvir
( e ouve)
outro galo cantar
noutro quintal
que houve.

(e que
se eu não dissesse
não ouviria
já que o poeta diz
o que o leitor
– se delirasse -
diria)

mas é que
antes de dizê-lo
não se sabe
uma vez que o que é dito
não existia
e o que diz
pode ser que não diria

e
se dito já não fosse
jamais se saberia

por isso
é correto dizer
que o poeta
não revela
o oculto:
inventa
cria
o que é dito
( o poema
que por um triz
não nasceria)

mas
porque o que ele disse
não existia
antes de dizê-lo
não o sabia

então ele disse
o que disse
sem saber o que dizia?
então ele sabia sem sabê-lo?
então só soube ao dizê-lo?
ou porque se já o soubesse
não o diria?

é que só o que não se sabe é poesia

assim
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber
o que
precisava dizer
ou poderia
pelo que o acaso dite
e a vida
provisoriamente
permite.

Ferreira Gullar, Em alguma parte alguma,p.p. 21,22,23,24,25, editora José Olympio
domingo, 24 de novembro de 2013 1 comentários

BURRO SEM RABO




Saia pela manhã bem cedo puxando com os próprios braços sua fiel companheira. Uma carroça que insistia em chamar de burro sem rabo. Por ser criança não entendia as razões que levavam meu avô a dar esse nome para a carroça que o acompanhava em seu dia a dia de trabalho.

Quando perguntava,Vô por que burro sem rabo?
Com o suor pingando do rosto ele respondia rindo:
- Porque é o burro que vai na frente.

E seguia o caminho puxando a carroça, sorrindo e catando ferro.

 Muitos se obrigados ao trabalho do meu avô sentiriam vergonha, no entanto ele chegava até a se divertir. E eu mais ainda quando era carregada por ele, era como brincar de carro.

No fim da tarde vô João sempre voltava para casa  com alguma história nova para contar. Perdi as contas de todos os "causos" que ouvi e das risadas dadas sentada na varanda enquanto minha avó preparava o café.

Esse homem foi boia- fria, cortador de cana, mineiro, carroceiro catador de ferro, pipoqueiro...

Viveu lamentando por não ter tido oportunidade de estudar ao longo da vida. Não queria passar para seus filhos e netos o legado de assinar documentos com o polegar. Sua única vergonha confessada.

Infelizmente vô João faleceu sem aprender a ler e eu estou aqui escrevendo para vocês. 

Para aqueles que medem o valor das pessoas apenas pelo que elas possuem (dinheiro) meu avô foi somente o seu João do ferro velho, ou no máximo, um burro de carga,  mas para mim ele é um grande exemplo de dignidade, assim como muitos outros brasileiros desprezados pelas classes sociais abastadas.
sábado, 29 de junho de 2013 0 comentários

PAPO BRABO

A verdade é que não se escreve mais como antigamente, pois naquele tempo não havia computadores, e, por incrível que pareça, nem mesmo canetas esferográficas.

Porém, se fôssemos registrar em papel todos os absurdos do ser humano, não sobraria sequer uma resma para os cartões de Natal.
Moral: Pode ser que esse texto seja incoerente, mas faz muito mais sentido do que o massacre dos sem-terra. Antes que eu me esqueça: a reforma agrária já começou. Criaram um ministério.

Isso posto, não de gasolina nem de saúde, já que uma é cara e a outra é carente, vamos ao que interessa. Quando digo vamos ao que interessa, vem-me logo à mente a pergunta: interessa a quem? A mim, pensará o leitor desavisado. O leitor avisado perceberá facilmente que estou me referindo a assuntos interessantes e, se não forem, também não interessa.

Resolvido essa questão da maior importância para aqueles que assim pensam, passo a seguir ao tema central da discussão, por sinal uma discussão que se perpetua enquanto dura.

A pergunta é a seguinte: como abordar um tema central quando se está fora do centro e, por isso mesmo, longe do efeito da força centrífuga? Como ficam nisso tudo o centro do poder, o centro espírita, o centro da cidade e o centro sempre discutido das pessoas autocentradas? Convenhamos, o que é centro para uns é esquerda para outros e direita no sentido de quem vem.

Infelizmente, quando se entra em assunto tão polêmico, ninguém se atreve a responder. Mesmo porque, ainda nem foi perguntado. Se for e quando for, tenho certeza de que sempre haverá alguém para discordar e eu perdôo, pois essas contradições são inerentes à alma humana.
Disse alma humana? Que dizer, então, das outras almas? Da desumana, da penada, da alma do negócio e, principalmente, da alma minha gentil que te partiste / tão cedo desta vida descontente / repousa lá no céu eternamente?

Não quero parecer ilógico, mas seria de péssimo gosto trazer mais uma vez à baila essa intrigante questão. Aliás, pensando bem, ou mesmo pensando mal, por que trazer à baila e não levar ao baile? Ou mesmo trazer o baile à baila?

Nunca tiveram a coragem de revelar essa incongruência histórica: no baile da Ilha Fiscal ninguém pagava imposto de renda.
Digam o que disserem: a dura realidade é que nenhum intelectual que se preze pode desprezar-se.
Tenho a mais absoluta convicção de ter sido claro e objetivo na colocação dessas idéias.
Para finalizar, termino.

JÔ SOARES

              Mucamas do PCdoB

          PROSTITUIÇÃO NO PCdoB
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013 0 comentários

VELHO DIÁRIO


Na infância cataloguei minha vida em pequenos diários, na adolescência em agendas anuais, e por fim cheguei aos blogs. Adorei essa interação por meios eletrônicos porque possibilitou que pessoas as quais eu nunca tinha visto antes passassem a se comunicar comigo e trocar experiências. Desse modo, escrever me servia como válvula de escape. Ler e reler tudo o que escrevia ajudava a compreender, ou ao menos aceitar, o complexo mundo a minha volta.

Sei que a liberdade de escrever tudo como eu bem quisesse ou estendesse nunca foi real, mas sinto falta de poder escrever sem ressalvas. Escrever para desabafar, fazer confissões como quem fala a um velho amigo. Sem ter a impressão permanente de está sendo vigiada e analisada o tempo todo.
Mas agora nenhum lugar é seguro, Nem caderno, nem Email, nenhuma                                           rede social.
 
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