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sexta-feira, 29 de setembro de 2017 0 comentários

O TEMPO PRESENTE E O TEMPO PASSADO



"O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível
O que podia ter sido é uma abstração
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação

O que podia ter sido e o que não foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral.
As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito...

Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa?
Não sei.
Vai, vai, vai, disse a ave;
O gênero humano não pode suportar tanta realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um fim, que é sempre presente."

T.S. Eliot
terça-feira, 28 de março de 2017 0 comentários

REGISTRAR SEUS SONHOS PODE AJUDAR VOCÊ A SE ENTENDER MELHOR



Pesquisadores recomendam registrar sonhos para exercitar a memória e interpretar sua própria realidade.


Alguns casos famosos de pessoas inspiradas em seus próprios sonhos já renderam obras marcantes: muitas das poesias de Edgar Allan Poe foram baseadas em seus sonhos e a letra de “Yesterday”, de Paul McCartney, também surgiu enquanto o Beatle dormia.

Apesar disso, nem todos têm a sorte de lembrar detalhes de seus sonhos. Quantas ideias podem ter se perdido por causa disso? Esse é apenas um dos vários argumentos a favor de registrar no papel esses momentos.

Lembrar dos sonhos e poder interpretá-los serve como método para entender a si mesmo. Jayne Gackenbach, pesquisadora de sonhos da Universidade MacEwan, no Canadá, explica em entrevista ao Science of Us que, ao relembrá-los, você começa a notar certos padrões e anormalidades. Com o tempo, é possível usar essa noção para determinar quando estamos sonhando ou não.

O processo de descrever os sonhos em palavras também nos força a pensar mais ativamente sobre eles. Após a infância, é comum perdermos a habilidade de memorizar sonhos, mas tomar notas acaba funcionando como um exercício mental.

“Diários de sonhos também o ajudam a entender alguns sentidos da ‘vida acordado’”, disse Gackenbach. Os sonhos frequentemente oferecem um olhar sem filtros da sua própria realidade e são um tipo de paralelo da consciência de cada pessoa, como afirmou também o psicólogo Dylan Selterman. Mesmo assim, a memória humana muitas vezes é falha e essas lembranças podem variar com o passar do tempo.

“No período do sono, o cérebro vai fazer aquilo que sempre faz”, explicou Gackenbach. “Ele fornece inspiração criativa, regula as emoções negativas e, se conseguirmos acompanhar este processo, será mais fácil administrar essas sensações quando estivermos acordados.”

A pesquisadora observa que, para algumas pessoas, desenhar os sonhos pode ser um método mais fácil. Ela também recomenda dar títulos para cada sonho, o que “nos força a capturar a ideia essencial de cada um deles”.

Fora isso, não existem regras diretas para organizar seu próprio diário, mas o experimento é uma prática capaz de conectá-lo à própria psique e traduzir parte do que se passa dentro dela.

Fonte: Revista Science of Us
segunda-feira, 18 de abril de 2016 0 comentários

DOM QUIXOTE

MEU REPOUSO É A BATALHA


Sou Dom Quixote. Louco sim, mas com honra. Já não sei o que é real e o que é inventado, mas permaneço fiel a minha consciência, aconselhando bem a quem me faz mal. De fora lutando contras moinhos de vento, por dentro tendo outro moinho na mente, essa é a loucura do homem que vê. Critico o outro e critico a mim mesmo. Tento viver num mundo onde talvez já não exista espaço para sonhar. Sou Dom quixote. Não aprendi a ver direito as coisas e não conheço quem consiga, não havendo VERDADE só me resta permanecer fiel a meu SONHO IDEAL. 

JAQUELINE RAMIRO
quinta-feira, 8 de maio de 2014 0 comentários

SER OU ESTAR?



A realidade de cada um é construída de acordo com a biologia, experiências pessoais, valores e expectativas pessoais


Eu detesto a onda de pseudociência baseada, com licença poética abusiva, em uma versão fantasiosa da pobre da física quântica, popularizada por livros como O segredo e aquele filme maldito, Quem somos nós. Detesto por uma série de razões, entre elas a mensagem vil (para não dizer totalmente incorreta) de que não é preciso fazer nada para melhorar nossas vidas – quer dizer, nada além de pensar positivamente, pois sua consciência teria a capacidade de mudar a “realidade quântica” do mundo. (Ah, não funcionou e o colar de diamantes não apareceu no seu pescoço, nem o cheque no correio? Você não mentalizou direito. “Venha fazer um curso conosco e aprenda a mudar o mundo com o poder do pensamento!”)

Apenas uma ideia nisso tudo se salva e, ainda assim, apresentada muito tangencialmente por trás da propaganda toda: a noção de que, em vários sentidos, não somos, mas estamos. A diferença entre ser e estar vem aos poucos sendo consolidada pela neurociência, ainda que poucos sejam os estudos que a abordem explicitamente. Estamos, e não somos, no sentido de que a realidade de cada um de nós é diferente, construída de acordo com biologia, experiências pessoais, valores e expectativas.

Não o Real, aquilo que é externo ao corpo; este é alheio à nossa existência e não depende de qualquer atividade mental, embora possa ser mudado à força de mãos, martelos e bombas.

Mas a realidade que cada um usa para navegar o Real, esta sim é uma hipótese de trabalho, construída e reconstruída a cada instante pelo cérebro graças aos sentidos – mas tingida das cores pessoais de cada um.

Assim seu corpo está de certo tamanho e em certo lugar – mas pode encolher ou aumentar instantaneamente, ou até ser transferido para um manequim ou o avatar na tela do computador, graças a truques tão elaborados como realidade virtual ou tão simples como imagens e toques sincronizados. Ou graças ao uso de ferramentas agora já tão habituais que a transformação passa despercebida: assim você incorpora ao seu esquema corporal o lápis, os talheres, a pinça, e até mesmo o carro que dirige.

Assim, também, duas pessoas interpretam de maneiras radicalmente diferentes a mesma frase dita por uma terceira – ou, num bom dia, você ouve favoravelmente um comentário da sua esposa, e num mau dia, acha o mesmo comentário insultante. Viver como um ser que continuamente está tem um lado bom de permitir uma abordagem personalizada do mundo. Por outro lado, às vezes o estar dá errado, pois não mais corresponde bem o suficiente com o Real para servir de guia útil pelo mundo.

Em depressão, julgamos estar pior do que de fato estamos; em estado maníaco, ao contrário, criamos uma realidade brilhantemente cor-de-rosa que não representa os acontecimentos.

Em delírio, como na esquizofrenia ou na mania mais exacerbada, pode-se até estar em um mundo que fala com vozes e imagens que não pertencem ao Real. Mas é justamente o estar que permite o tratamento – e a volta a um estado mais útil, porque melhor representativo do Real.

Essa volatilidade toda, ainda assim, tem uma âncora ao longo do tempo e do espaço: você, essa unidade particular de cérebro e resto do corpo e história de vida. Esse conjunto é o que você é: o seu ser, finalmente – embora seja um conjunto também construído pelo cérebro e portanto meio que paradoxalmente também volátil. Enquanto estiver razoavelmente intacto, e dotado de memória, ele consegue costurar os seus vários “estar” ao longo da vida em um único “ser”. Mas vai-se o cérebro... e fica só  a impressão deixada na realidade dos outros.

Suzana Herculano-Houzel
quinta-feira, 23 de maio de 2013 0 comentários

DESTINO EXISTE?


Estamos mesmo no comando da nossa vida? A ciência tem mais de uma resposta: por um lado, o conceito de destino é imaginação pura. Por outro, a própria realidade é uma ilusão. E o futuro já está escrito.

Só podia ser destino. Eu, um dos autores desta reportagem, tinha 17 anos e estava apaixonado. Platônico total: tinha conhecido a menina 8 meses antes, numa viagem. A gente ficou junto e no dia seguinte foi cada um para o seu canto. A menina, para a cidade dela, eu, para a minha. Não teve troca de telefone nem nada. Fim. Mas a moça não saía da minha cabeça. Seis, 7, 8 meses e a coisa só aumentava. Ir atrás dela? Esquece. A mulher morava numa metrópole de mais de 1 milhão de habitantes - e nem o sobrenome dela eu tinha. O certo mesmo era pôr a cabeça no lugar e partir pra outra. Então pensei bem e tomei a decisão mais sensata: ir atrás dela. Desci na rodoviária do lugar, fiquei umas horas andando por lá sem eira nem beira... Mas aí, minha nossa. Ela, a própria, me passa andando bem ali, do outro lado da calçada. Atravesso a rua com o batimento mais acelerado que coração de big brother no paredão. Tinha dado certo. Só podia ser destino.

Encontrar um amor, ganhar na loteria, escapar de uma batida de carro, bater o carro... Vários capítulos da vida acontecem de um jeito tão inesperado que não dá para não pensar: é tudo acaso mesmo? Ou existe algo misterioso regendo a existência? Você vai ver nas 4 reportagens a seguir que as duas perguntas têm a mesma resposta: sim. Nada está escrito. Mas tudo está escrito.

O destino está nas estrelas

A ideia de um futuro predeterminado move filosofias e religiões. E serve de combustível para um dos conceitos mais antigos da humanidade: o de que os astros regem nossa vida.

A crença de que nosso futuro já está determinado é parte do que somos. O problema é que nosso cérebro tem um defeito congênito: ele é programado para encontrar sentido em qualquer coisa, inclusive para a existência.

Quer ver como isso funciona, Rafael? Bom, quem se chama Rafael acabou de ver. Poderíamos ter escrito qualquer nome aqui. Mas se for o seu, Juliana, isso vai parecer especial. Claro que ver o seu nome impresso do nada já é algo especial. Mas sua mente tende a achar mais especial. Até as mentes mais céticas imaginam naturalmente que uma força superior determinou isso. O destino, talvez. Mas a realidade é que escolhemos Rafael e Juliana porque são nomes comuns. A chance de acertarmos o nome de vários leitores não era desprezível.

Um exemplo mais claro: imagine que o próximo concurso da Mega-Sena dê 01, 02, 03, 04, 05 e 06. Seria destaque do Jornal Nacional, conversa de almoço de domingo... Mas a chance de dar uma se-quência dessas é estatisticamente a mesma de sair uma que o cérebro entende como mais comum, tipo 06, 13, 17, 27, 45 e 54. A diferença é que a nossa mente adora padrões. E a ideia de que todos os acontecimentos da nossa vida orquestram-se rumo a um destino predefinido é a quintessência dessa coisa de ver padrão em tudo. E basta uma coincidência qualquer, como seu nome impresso aqui ou a menina encontrada no meio de uma cidade grande, para engatilhar essa impressão.

Por isso mesmo todas as culturas desenvolveram métodos de prever o futuro. Ele podia estar desenhado em tripas de carneiro, nuvens, restos de placenta...Mas nenhuma forma de tentar ver o futuro chegou com tanta força ao presente quanto a astrologia.

Ligar o movimento dos astros aos trancos e barrancos da vida aqui embaixo é algo que começou na Pré-História. Esse hábito deriva de uma observação simples: a de que a posição do Sol não varia apenas de acordo com as horas do dia mas também com a passagem do ano. Observando os pontos em que o Sol nascia no horizonte, nossos ancestrais notaram que ele ia mudando de direção com o passar dos meses. E logo identificaram um grupo de constelações posicionadas perto dessa rota aparente do Sol. Ao contrário das outras estrelas, que se movem visivelmente ao longo do ano, aquele anel de constelações - que os gregos batizaram de "círculo de animais", ou "zodíaco" - parecia fixo.

Também notaram que a posição do Sol em relação ao zodíaco tinha ligação com o clima e as estações. O nascimento do Sol próximo à constelação de Áries marcava o equinócio de primavera - o momento em que o dia e a noite têm duração idêntica. Essa data sempre teve importância simbólica: marcava a entrada da primavera no hemisfério norte e era centro de celebrações religiosas relacionadas à fertilidade. A conclusão era que aquelas constelações influenciavam a duração dos dias e o clima - parecia simplesmente lógico, então, que também tivessem poder sobre a vida humana. Daí vieram os primeiros horóscopos, que já eram produzidos na Mesopotâmia de 1 000 anos antes de Cristo de maneira idêntica à de hoje. Se uma criança vinha ao mundo no período em que o Sol nasce na parte do céu ocupada por Libra, a vida dela era "regida" pela constelação - na prática, o conjunto de estrelas era entendido como uma divindade. O costume passou para os gregos, romanos, e daí para o mundo.

A astrologia já teve prestígio de ciência - até o século 17 quase todo astrônomo também era astrólogo, incluindo aí gênios científicos como Johanes Kepler. Isso acabou. Mas o poder da astrologia não. Estima-se que 70% das pessoas no Ocidente leiam seu horóscopo.


Várias religiões e um destino

O conceito de destino sofisticou-se com o tempo. Ele se tornou fundamental para a filosofia e a religião. E continua até hoje. Tanto que uma das doutrinas mais antigas sobre o assunto ainda está em voga: a do carma, elaborada há pelo menos 3 mil anos na Índia.

De acordo com ela, nada acontece por acaso: todos os fatos na vida de um indivíduo são consequência de suas ações em existências passadas. "Nosso caráter é resultante total de nosso passado, e o nosso futuro será determinado por nosso presente. Quando dizemos que algo ocorreu por acaso ou por acidente, isso se deve ao nosso conhecimento limitado dos fatos", diz Swami Nirmalaiatmananda, líder do movimento religioso vedanta no Brasil. Embora o plano geral de nossa vida já esteja traçado antes do nascimento, a teoria do carma deixa espaço à liberdade humana: cada pessoa pode tentar agir com virtude e ir "descontando" a carga das vidas passadas. Quem acertar as contas cármicas será recompensado na próxima reencarnação; mas quem ficar no vermelho terá de pagar com acidentes e desgraças.

Alguns pensadores da Grécia antiga tinham uma visão parecida, mas menos liberal: defendiam que não dá para escapar do que estiver reservado para você. Eram os adeptos do estoicismo, uma das correntes filosóficas mais influentes da Antiguidade. De acordo com os estoicos, o futuro é tão inalterável quanto o passado. Zero de livre-arbítrio.

Na mesma época em que o estoicismo ganhava força, por volta do século 4 a.C., surgiu uma corrente com ideias opostas: o epicurismo. Se os estoicos achavam que o Universo era uma ordem perfeita, Epicuro afirmava que a essência de tudo o que existe é o caos. O nosso mundo e a nossa vida seriam fruto do acaso. E pronto. Essa ideia seria retomada no século 20 por filósofos existencialistas, como Jean-Paul Sartre. Para ele, acreditar em um futuro com cartas marcadas equivalia a escapar da responsabilidade de tomar decisões. Os existencialistas afirmaram, com isso, a total liberdade humana - mas também legaram um medo: o de que podemos viver em um mundo que não faça sentido. Afinal, isso vai contra aquele instinto básico do cérebro de tentar ver sentido, ordem, em tudo.

Na história do cristianismo - e das outras religiões monoteístas -, o problema do destino assumiu vestimentas teológicas. A história da traição de Judas a Jesus ilustra bem isso. Os Evangelhos deixam bem claro que a crucificação de Cristo fazia parte dos planos divinos - mas a cruz só foi possível graças ao maligno feito de Judas. Nesse caso, Judas estaria predestinado a ser mau? A resposta mais radical foi dada pelo protestante francês João Calvino no século 16. Na obra Instituição da Religião Cristã, ele formulou a teoria da predestinação. Segundo ela, Deus escolheu de antemão um (pequeno) número de pessoas para a salvação eterna - e condenou previamente a maioria das pessoas ao inferno. Assim como Judas, a maior parte da humanidade estaria simplesmente destinada ao mal e à punição. "Se a negação do destino traz angústia pela responsabilidade das escolhas humanas, a doutrina da predestinação angustia porque, no fundo, não temos como saber qual a escolha divina", explica o filósofo Franklin Leopoldo Silva, da Faculdade de São Bento, em São Paulo.

Calvino acreditava que a misericórdia divina poderia eventualmente alterar os destinos - mas, no século 20, fundamentalistas protestantes dos EUA reciclaram a doutrina calvinista para criar a chamada "teologia da prosperidade". Segundo eles, a riqueza e a boa sorte nos negócios são sinais de que determinada pessoa foi "escolhida para o paraíso", enquanto a pobreza e o azar são indícios de que alguém já está previamente condenado ao inferno. Um raio na cabeça seria evidência indiscutível de que, antes mesmo de seu nascimento, Deus já havia decidido que você não presta.Mas esse conceito radical de destino está longe de ser a regra mesmo entre os protestantes. No catolicismo, muito menos. O Vaticano sempre frisou o livre-arbítrio como uma peça necessária à responsabilidade moral. Afinal, se as pessoas fossem boas ou más por decreto divino, qual o sentido de recompensá-las ou puni-las?

A teologia muçulmana também procurou um meio-termo entre o livre-arbítrio e a potência divina: o homem é livre para agir, mas Deus já sabe de antemão o que cada um de nós vai fazer ou deixar de fazer. "Deus tem o pré-conhecimento de todas as escolhas que tomaremos, mas não nos obriga a tomá-las; sabe tudo o que vai acontecer, mas não provoca os acontecimentos", explica Sami Arrmed Isbelle, diretor da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro.

O surreal é que a ideia de um futuro predeterminado e, ao mesmo tempo, inescrutável, tem uma colaboradora inusitada: a ciência. Ela mesma indica que, sim, seu futuro está escrito. Como disse Einstein em pessoa: "A distinção entre passado, presente e futuro é uma ilusão".

              Mucamas do PCdoB
          PROSTITUIÇÃO NO PCdoB
terça-feira, 7 de maio de 2013 0 comentários

FEIAS E BONITAS



ERAM DUAS irmãs, uma muito bonita e a outra - bem, a outra não. A bonita tinha um corpo como qualquer mulher gostaria de ter (sem ser esquálida), era não só elegante, como se vestia de maneira diferente. Era original, criativa, isso sem ser extravagante nem exibida. Um show de mulher, que quando entrava nos lugares era olhada por homens e mulheres, com admiração.
Eu, ainda garota, era amiga das duas; inicialmente da mais bonita, pois era com ela que saía à noite, ia às festas, aos lugares onde as coisas aconteciam. A outra era casada; mal casada mas casada, e nos víamos eventualmente para almoçar. Ela era simpática, agradável, mas perto da irmã, desaparecia. E a irmã tinha sempre muitas histórias boas para contar.
Histórias dos bastidores da alta costura (tudo isso se passou em Paris), das pessoas famosas que ela conhecia, e sobretudo dos seus "dramas" amorosos. Ela nunca tinha um namorado só e, como nenhum morava em Paris, isso facilitava bem as coisas.
Ainda me lembro: naquela época -estou falando dos anos 50- os telefones eram precários, e as comunicações aconteciam por telegrama. Um dos namorados era príncipe -havia tantos, sobretudo na Itália- , se chamava Galvano e morava na Sicília. Volta e meia chegava um telegrama, marcando de encontrá-la em Palermo no fim de semana; e lá ia ela. O outro morava em Milão, e o encontro seria em Roma. Na época, nunca me ocorreu por que razão eles não iam nunca a Paris; era assim e pronto.
Ela sofria, e eles aprontavam, sumiam, namoravam outras, e assim foi indo a vida. Um dia ela achou que estava na hora de sossegar e se casou com um belo italiano; não me parece que tenha sido um grande amor, mas foi um casamento que funcionou. Ela foi morar em Milão, trancou-se em casa, e sua única distração, digamos assim, era a moda. Comprava tudo que aparecia de novo, até que um dia teve uma doença ruim e morreu.
Enquanto isso a vida da irmã continuava: separou-se do primeiro marido -porque quis-, marido esse que passou anos fazendo tudo para que ela voltasse. Se casou de novo, com um produtor de cinema, e o casamento, muito feliz, durou até que um dia ele teve um infarto fulminante e morreu.
Ela sofreu, mas não deixou a peteca cair; tempos depois estava casada de novo, com o homem que mais amou, e que trabalhava no show business. Foi um amor louco, absoluto; ele tinha uns 15 anos menos que ela, era lindo, e morreu aos 33 anos de cirrose. Como ela sofreu; parecia que nunca mais levantaria a cabeça.
É preciso aqui fazer uma pausa: desde que a irmã se casou, fomos ficando cada vez mais amigas. Fui percebendo o quanto ela era generosa, interessada pelas pessoas, pelo mundo em geral, sempre pronta a fazer agrados, carinhos, tolerante e paciente com todos que a rodeavam. Um dia conheceu seu último marido, com o qual está casada há 30 anos. Um ótimo casamento, devo dizer.
E fiquei pensando que os atributos físicos, tão valorizados, fazem com que as pessoas se esqueçam do principal, do que realmente importa, e que faz com que as pessoas se gostem, fiquem amigas, até se apaixonem. Nunca nenhum homem largou essa minha amiga; já a bonita teve uma vida sentimental atrapalhada, eu diria mesmo infeliz, e não sei se por acaso ou por que, eu comecei amiga de uma, o tempo passou e fui ficando amiga da outra como nunca havia sido da primeira.
E ainda sou.

DANUZA LEÃO


              Mucamas do PCdoB
          PROSTITUIÇÃO NO PCdoB
 
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