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quinta-feira, 10 de março de 2016 0 comentários

O CANTO DO GALO


O meu pensamento é um devorador de imagens. Quando me aparece uma boa imagem eu rio de felicidade e o meu pensador põe-se a brincar com ela como um menino brinca com uma bola. Se me disserem que este hábito intelectual não é próprio de um filósofo, que os filósofos devem manter-se dentro dos limites de uma dieta austera de conceitos puros e sem temperos, invoco em minha defesa Albert Camus, que dizia que só se pensa através de imagens.

Amo as imagens mas elas amedrontam-me. As imagens são entidades incontroláveis que frequentemente produzem associações que o autor não autorizou. Os conceitos, ao contrário, são bem comportados, pássaros engaiolados. As imagens são pássaros em voo… Daí o seu fascínio e o seu perigo. Mas eu não consigo resistir à tentação. Assim, aqui vai uma parábola que me apareceu, com todos os riscos que ela implica:

Era uma vez um lavrador que criava galinhas. Era um lavrador fora do comum, intelectual e progressista. Estudou administração para que a sua quinta funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutoramento em criação de galinhas. No curso de administração aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuízo; deve, portanto, ser eliminado. Aplicado à criação de galinhas esse princípio traduz-se assim: galinha que não põe ovo não vale a ração que come. Não pode ocupar espaço no galinheiro. Deve, portanto, ser transformada em cubinhos de caldo de galinha.

Com o propósito de garantir a qualidade total da sua quinta, o lavrador estabeleceu um rigoroso sistema de controlo da produtividade das suas galinhas. Produtividade de galinhas é um conceito matemático que se obtém dividindo-se o número de ovos postos pela unidade de tempo escolhida. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou superior a 250 ovos por ano podiam continuar a viver na quinta como galinhas poedeiras.

Estabeleceu, inclusive, um sistema de mérito galináceo: as galinhas que punham mais ovos recebiam mais ração. As galinhas que punham menos ovos recebiam menos ração. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou inferior a 249 ovos por ano não tinham mérito algum e eram transformadas em cubinhos de caldo de galinha.

Acontece que conviviam com as galinhas poedeiras, galináceos peculiares que se caracterizavam por um hábito curioso. A intervalos regulares e sem razão aparente, eles esticavam os pescoços, abriam os bicos e emitiam um ruído estridente e, acto contínuo, subiam para as costas das galinhas, seguravam-nas pelas cristas com o bico, e obrigavam-nas a agacharem-se. Consultados os relatórios de produtividade, verificou o lavrador que isso era tudo o que os galos – esse era o nome daquelas aves – faziam. Ovos, mesmo, nunca, jamais, em toda a história da quinta, nenhum deles tinha posto.

Lembrou-se o lavrador, então, das lições que aprendera na escola, e ordenou que todos os galos fossem transformados em cubos de caldo de galinha. As galinhas continuaram a pôr ovos como sempre haviam posto: os números escritos nos relatórios não deixavam margens para dúvidas. Mas uma coisa estranha começou a acontecer. Antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias, quebravam-se e de dentro deles saíam pintainhos vivos. Agora, os ovos das mesmas galinhas, depois de vinte e um dias, não quebravam. Ficavam lá, inertes. Deles não saíam pintainhos. E se ali continuassem por muito tempo, estouravam e de dentro deles o que saía era um cheiro de coisa podre. Coisa morta.

Então o lavrador científico aprendeu duas coisas:

1º: o que importa não é a quantidade dos ovos; o que importa é o que vai dentro deles. A forma dos ovos é enganosa. Muitos ovos lisinhos por fora são podres por dentro.

2º: há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidas por meio de números. Coisas sem as quais os ovos são coisas mortas.



Esta parábola é sobre a universidade. As galinhas poedeiras são os docentes. Corrijo-me: docente, não. Porque docente quer dizer aquele que ensina. Mas o ensino é, precisamente, uma actividade que não pode ser traduzida em ovos; não pode ser expressa em termos numéricos. A designação correcta é pesquisadores, isto é, aqueles que produzem artigos e os publicam em revistas internacionais indexadas.

Artigos, como os ovos, podem ser contados e computados nas colunas certas dos relatórios. As revistas internacionais indexadas são os ninhos acreditados. Não basta pôr ovos. É preciso pô-los nos ninhos acreditados. São os ninhos internacionais, em língua estrangeira, que dão aos ovos a sua dignidade e valor. A comunidade dos produtores de artigos científicos não fala português. Fala inglês.

Como resultado da pressão publish or perish, ponha ovos ou a sua cabeça será cortada, a docência acaba por perder o sentido. Quem, numa universidade, só ensina, não vale nada. Os alunos passam a ser trambolhos para os pesquisadores: estes, ao invés de se dedicarem à tarefa institucionalmente significativa de pôr ovos, são obrigados, pela presença de alunos, a gastar o seu tempo numa tarefa irrelevante: o ensino não pode ser quantificado (quem disser que o ensino se mede pelo número de horas/aula é um idiota).

O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem orientar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender à exigência da comunidade científica internacional de publish or perish. Eu acho que o objectivo das escolas e universidades é contribuir para o bem-estar do povo. Por isso, a sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar, porque é com o pensamento que se faz um povo. Mas isso não pode ser quantificado como se quantificam os ovos postos.

Sugiro que as nossas universidades, ao avaliar a produtividade dos que nelas trabalham, dêem mais atenção ao canto do galo…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

Rubem Alves
domingo, 10 de novembro de 2013 1 comentários

A LENDA DO UIRAPURU

 

CARACTERÍSTICAS E CANTO


O nome Uirapuru aplica-se a vários pássaros da mesma família: uirapuru-de-peito-branco; uirapuru-veado; uirapuru-de-asa-branca; e o uirapuru-verdadeiro.
Esse tipo de pássaro é conhecido, também, como corneta, ou músico. Entretanto, o termo Uirapuru refere-se ao uirapuru-verdadeiro.

O Uirapuru é uma ave pequena de aproximadamente 12,5cm, de plumagem pardo-avermelhada e bem simples, tendo às vezes, nos lados da cabeça, um desenho branco. Tem bico forte, pés grandes e de comportamento irrequieto, movendo-se rapidamente no meio da folhagem ou do solo.
Pássaro típico da Amazônia e raramente visto, pois vive habitualmente na parte mais alta das copas das árvores da selva. Alimenta-se de frutas e insetos.

Durante o ano todo, o Uirapuru canta apenas cerca de quinze dias, pois seu cantar longo e melodioso só acontece para atrair a parceira para o acasalamento e durante a construção do ninho. Cantos que duram de dez a quinze minutos ao amanhecer e ao anoitecer.

O canto do Uirapuru ecoa na mata virgem com um som puro e delicado, como o de uma flauta. Parece ser emitido por uma entidade divina. Quando canta o uirapuru, a floresta silencia. Todos calam para reverenciar o mestre, todos seduzidos pela beleza do seu trinado.

Quem tiver o privilégio de ouvir seu canto, jamais o esquecerá.

 

A NARRATIVA SOBRE A PAIXÃO DO JOVEM ÍNDIO


Existe a lenda amazônica sobre o Uirapuru. Nos registros existem, basicamente, duas narrativas, entretanto, ambas revelam que a origem do Uirapuru foi a compensação dada pela divindade ao grande sofrimento causado por amor de impossível realização.
Uma das narrativas conta que um jovem índio apaixonou-se perdidamente pela esposa do grande cacique da tribo. Incapaz de viver este amor impossível pediu a Tupã, que o transformasse em ave, para amenizar a sua dor. Desde então, às noites, passou a cantar bela melodia, para fazer a sua amada dormir.

O cacique ficou tão fascinado pelo canto que perseguiu o pássaro para prendê-lo. O Uirapuru voou para a floresta e o cacique, na perseguição, nela se perdeu para sempre.
Todas as noites o Uirapuru voltava para acalentar os sonhos do seu amor, esperando, também, que um dia, a índia pudesse reconhecê-lo e despertá-lo do seu encanto.

 

A NARRATIVA SOBRE A PAIXÃO DE DUAS ÍNDIAS


A outra narrativa conta que duas índias muito amigas apaixonaram-se pelo mesmo guerreiro da tribo. A história do amor das duas se espalhou pela aldeia, e os mais velhos resolveram perguntar ao índio qual das duas ele amava. A resposta surpreendeu a todos , confessou seu amor pelas duas.

Pelas tradições da tribo não era permitido o casamento com as duas índias e, assim, o conselho de anciões da tribo decidiu: “o guerreiro casaria com aquela que primeiro conseguisse flechar um marreco voando”.

O casamento foi realizado. A índia que perdeu foi ficando cada vez mais triste, pois não suportava a impossibilidade de realizar seu grande amor e a saudade da amiga Procurou um lugar distante e começou a chorar. Chorou tanto, que suas lágrimas se transformaram num riacho.

Inconformada com aquela situação implorou a Tupã para ser transformada num pássaro.
Tupã compadecido atendeu-a dizendo: “de hoje e para sempre serás o Uirapuru. Terás um canto tão lindo e harmonioso que te livrarás de teu sofrimento. Quando cantares a floresta silenciará”.

 

SUPERSTIÇÕES


Devido às lendas, uma pena ou um pedaço do ninho, ou o próprio uirapuru, mesmo morto, são tidos como precioso talismã ao amor.
Nesse mundo de desencontros, o homem tornou-se o maior predador do uirapuru-verdadeiro, por acreditar que, por meio dos poderes atribuídos ao pássaro, realizará seus sonhos de amor.

A tendência é o desaparecimento dessa crendice pois , mais cedo ou mais tarde, entenderemos que os poderes atribuídos ao pássaro, existem no interior de cada um de nós. Esses poderes não são nada mais do que nossa capacidade de amar, capaz de realizar todos os sonhos  de amor, até mesmo os considerados impossíveis.

“Uirapuru”  são nossas rimas e nosso canto, sem quaisquer pretensões de silenciar a floresta, mas  a de registrar  mais uma das encantarias do imaginário amazônico.




FONTES:
Livro "Cultura Amazônica" de João Paes Loureiro; e dos
Sites: shvoong.com/humanities; portalamazonia.globo.com; saudeanimal.com.br; uirapuru.agr.br; contoselendas.blogspot.com.
 
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