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sexta-feira, 29 de setembro de 2017 0 comentários

O TEMPO PRESENTE E O TEMPO PASSADO



"O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível
O que podia ter sido é uma abstração
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação

O que podia ter sido e o que não foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral.
As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito...

Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa?
Não sei.
Vai, vai, vai, disse a ave;
O gênero humano não pode suportar tanta realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um fim, que é sempre presente."

T.S. Eliot
sábado, 1 de abril de 2017 0 comentários

AMAR O TEMPO




Todo minuto é momento
Um invento, um sentido, 
Por fora, por dentro,
É cada segundo, sem tempo,
É quase nada no vento

A vida são horas correndo e se existe ou não um destino,
Ele é só um menino que não sabe onde vai

A verdade é que nada se sabe, 
Se é do errado que se chega ao certo,
Se é pra frente, pra trás ou pros lados,
`Porque não tem lado certo, nem errado
Não tem nem em cima nem embaixo

E os minutos continuam correndo,
E a gente sempre mais lentos,
Sem saber para que andar
Já que é o tempo que nos carrega
Até onde quiser nos levar
Que me leve em qualquer pé de vento
Para um tempo que seja de amar

Edmir Silveira
domingo, 26 de março de 2017 0 comentários

TREM BALA - ANA VILELA E LUAN SANTANA - LEGENDADO



Não é sobre ter
Todas as pessoas do mundo pra si
É sobre saber que em algum lugar
Alguém zela por ti
É sobre cantar e poder escutar
Mais do que a própria voz
É sobre dançar na chuva de vida
Que cai sobre nós

É saber se sentir infinito
Num universo tão vasto e bonito
É saber sonhar
E, então, fazer valer a pena cada verso
Daquele poema sobre acreditar

Não é sobre chegar no topo do mundo
E saber que venceu
É sobre escalar e sentir
Que o caminho te fortaleceu
É sobre ser abrigo
E também ter morada em outros corações
E assim ter amigos contigo
Em todas as situações

A gente não pode ter tudo
Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso, eu prefiro sorrisos
E os presentes que a vida trouxe
Pra perto de mim

Não é sobre tudo que o seu dinheiro
É capaz de comprar
E sim sobre cada momento
Sorrindo a se compartilhar
Também não é sobre correr
Contra o tempo pra ter sempre mais
Porque quando menos se espera
A vida já ficou pra trás

Segura teu filho no colo
Sorria e abraça teus pais
Enquanto estão aqui
Que a vida é trem-bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir

Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá
Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá

Segura teu filho no colo
Sorria e abraça teus pais
Enquanto estão aqui
Que a vida é trem-bala, parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir
sábado, 28 de janeiro de 2017 0 comentários

TEMPO É MUDANÇA





O tempo é a dimensão da mudança. Sem percepção da mudança, não há e não pode haver percepção do tempo. E as diferentes atitudes para com o tempo são corolários de diferentes atitudes para com a mudança. 

(...) Vive-se bem a vida em camaradagem com o tempo, vendo-o como ele é, respeitando as suas obras, inclusive a decadência e a morte, com o passado e com a história. A restauração é uma autodecepção e frequentemente um crime.

(...) O tempo é frequentemente destrutivo - como o são os escultores quando trabalham um bloco de pedra. Mas velhos rostos podem ser mais expressivos que rostos jovens, velhas paredes e esculturas mais ricas que as novas.

Walter Kaufmann, in 'O Tempo é um Artista'
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017 0 comentários

PASSAGEM DO ANO



O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,


Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,

Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.


O último dia do tempo

Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...


Recebe com simplicidade este presente do acaso.

Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.


Teu pai morreu, teu avô também.

Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.


O recurso de se embriagar.

O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.


Surge a manhã de um novo ano.



As coisas estão limpas, ordenadas.

O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.


A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.


Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 20 de junho de 2016 1 comentários

FELICIDADE SIMPLES


PERGUNTEI AO TEMPO QUAL SERIA A SOLUÇÃO. ELE SÓ DISSE:DEIXE-ME PASSAR.


Tenho saudade dos amigos da mocidade, quando olho para trás tenho impressão que na juventude tudo era mais simples. Para conhecer pessoas bastava um oi, me chamo Jaqueline. E você? 
O mundo era menos defensivo e eu também. 

A maldade  já existia, mas era diferente a importância que eu atribuía a ela. Hoje se deixo para lá, é pra não magoar tanto. 

Estar feliz era mais simples do  que se aborrecer. As necessidades não tinham peso de responsabilidade e o tempo era aliado.  Não havia enganos, somente pequenos erros que poderiam ser corrigidos na manhã seguinte e o passar de uma noite tinha o poder de mudar um mundo inteiro. 




terça-feira, 16 de junho de 2015 1 comentários

AVERSÃO A GENTE FÚTIL E PREPOTENTE



Sei que o fato de eu ter cursado uma concorrida faculdade Pública é motivo de muita inveja para alguns.  Mas deveria ser  apenas um bom exemplo ou mesmo um incentivo.

A vida não é fácil para ninguém e por isso devemos respeitar os limites de cada pessoa. Nunca tive papai e mamãe para me ajudar em absolutamente nada, eles estavam muito ocupados tentando levar suas vidinhas de solteiros e tentando encontrar o pote de ouro no final do arco-ires para perderem tempo dando atenção as necessidades de uma criança.

Não rolou nem mesmo aquele padrinho mágico.

No entanto, fui e estou sempre, sendo forte como a vida exige de nós: OS VENCEDORES. 

Porém confesso que cada dia  tem sido mai difícil ter de dá com a ignorância das outras pessoas. Não falo da ignorância daqueles que não tiveram oportunidade de se instruir, mas da ignorância por estilo de vida: aquela dos arrogantes, dos prepotentes, DOS QUE NÃO TEM NADA A DIZER. 

ENTENDA: NEM TODO DIABO VESTE PRADA.
Isso é para poucos.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014 2 comentários

QUEM AMA O FEIO, BONITO LHE PARECE



Se você é jovem, um desses que ainda frequenta escola ou faculdade, deixo por conselho que namore os feios, pois o bonitinho de hoje pode ser o feio de amanhã, daí já imaginou a sua decepção? Mais o contrário também pode acontecer, do feio se transformar em príncipe, nesse caso namorar o feio é um investimento para o futuro.

Por esses dias estava num desses poucos momentos em que assisto TV e es que no comercial tive uma aparição: era um ex namoradinho passando no comercial. Pelo o amor de Jimi Hendrix, a surpresa não foi por ele está na TV, mas em razão da sua aparência. Quando namorávamos ele era alto, elegante. As moças curvavam o pescoço para vê-lo passar, as amigas me invejavam por estar com ele, mas agora o carinha é a visão do Jason sabe, aquele dos filmes de terror com uma máscara de hóquei. E o pior: é um Jason obeso. 
Será que os buracos na cara do meu ex são marcas de inúmeras espinhas ou ele teve uma catapora violenta? Não sei.  


Rubens Alves no documentário professor de espantos diz que quando gostamos muito de um lugar, passado muitos anos, melhor não visita-lo, pois dificilmente ele será agradável como você se recorda. Acho que isso vale para pessoas também. 
sábado, 22 de novembro de 2014 0 comentários

5 MANEIRAS DE FAZER O TEMPO PARAR DE VOAR



Desacelerar a percepção do tempo é possível
 
Sua vida parece estar passando num piscar de olhos? A psicologia explica o fenômeno e pode te ajudar a aproveitar mais o tempo
 
Está impressionado sobre como metade do ano já passou? Não entende porquê seu aniversário parece chegar cada vez mais rápido com o tempo? E o Natal então, que bruxaria é essa que passa a impressão de que, quando estamos no dia 25, a última ceia em família aconteceu apenas um mês atrás? Tudo isso tem a ver com a nossa percepção do tempo: segundo teorias psicológicas recentes, a grande responsável pela aceleração de nossas vidas tem um nome – rotina.

Novas experiências ficam gravadas na memória e desaceleram o tempo
O armazenamento da memória humana não funciona como um disco rígido de computador, que salva cada informação, bit por bit. No nosso caso, a memória é socialmente construída, nem tudo é guardado e, mesmo as coisas que mantemos, frequentemente não são fáceis de serem acessadas. Na maioria das vezes, o que fica gravado de um jeito mais forte nas nossas lembranças são as primeiras experiências que temos de alguma situação, aqueles momentos marcantes, intensos, inusitados e novos que parecem fazer com que a hora passe mais devagar.

E é justamente por isso que a rotina faz o tempo voar: quando a vida se resume  a uma interminável repetição das mesmas experiências, não temos porquê guardar estas memórias de uma forma especial, e tudo parece passar por nós como um borrão. A mesma lógica explica o motivo pelo qual a infância segue o caminho oposto – o mundo era inteiro feito de novidades, por isso o ritmo das coisas era bem mais vagaroso.

Confira estas dicas simples para ajudar a desacelerar sua percepção do tempo e aproveitar melhor seu dia a dia:

1. Experimente coisas novas


Não há como negar que a rotina tenha um apelo forte e transmita uma sensação de conforto. No entanto, pequenas mudanças já podem fazer uma grande diferença na forma como apreendemos nosso cotidiano: por que não tentar um trajeto diferente para casa ou para o trabalho? Que tal jantar em um restaurante diferente, ou viajar para um lugar novo? Começar pelos detalhes pode ser um bom caminho.

2. Tente inovar no trabalho


Por ocupar tantas horas do dia, o trabalho merece uma atenção especial. É fácil deixar que a torrente de obrigações te deixe levar, e fazer tudo da mesma forma pode parecer uma boa opção para garantir os resultados esperados. Mesmo que seja difícil, correr riscos é importante: uma postura mais inovadora pode criar situações gratificantes e estimular o envolvimento com seu emprego, além de aumentar o sentimento de auto-satisfação.

3. Conheça pessoas novas


Sabe aquela pessoa que você vê todos os dias, mas com quem nunca trocou sequer uma palavra? Ela poderia se tornar uma grande amiga ou, quem sabe, até mesmo um grande amor. Conhecer histórias de vida e estabelecer novos vínculos possui um grande potencial de gerar momentos estimulantes.


4. Aproveite melhor cada momento


Aqui cabe citar o velho Carpe Diem: focar no momento presente e aproveitá-lo da melhor maneira possível é a chave para extrair o máximo de suas experiências e aprender com elas. Mesmo para as coisas que compõem claramente uma rotina, há uma saída – tente vê-las de um outro ângulo. Prestar mais atenção ao seu redor, tanto no novo quanto no velho, é uma ótima forma de incentivar insights e intensificar seus momentos.


5. Foque no lado bom das coisas



Vale tanto para o passado, quanto para o presente, como para o futuro: valorize mais as boas lembranças vividas, atenha-se ao que te faz sentir mais estimulado, e espere o melhor do seu futuro. Aposte sempre na espontaneidade – nada como atitudes inesperadas para quebrar a rotina.

André Jorge de Oliveira
segunda-feira, 13 de outubro de 2014 0 comentários

O AMOR E O TEMPO




Transformar o minuto em momento
Um invento, um sentido, por dentro,
Ser cada segundo, sem tempo,
Sabendo que esse é o supremo talento

A vida são horas correndo e se existe ou não um destino,
Ele deve ser um menino que nem sabe onde está,
Porque de nada se sabe, se é do errado que se chega ao certo,
Se é pra frente, pra trás ou pros lados

E os minutos continuam correndo,
E a gente sempre mais lentos,
Sem saber direito o que achar

De tanto e de muito buscar, sempre chega o momento,
Da alegria alcançar a alma e dos sonhos voltarem a sonhar,
Em ser feliz para sempre, simplesmente por sempre amar.

 Edmir Silveira
sábado, 21 de junho de 2014 0 comentários

TEU SONHO NO MEU SONHO



Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobra suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma mais viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo,
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas.
Enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.

PABLO NERUDA
sábado, 3 de maio de 2014 1 comentários

A SÍNDROME DOS 20 E TANTOS



"Você começa a se dar conta de que seu círculo de amigos é menor do que há alguns anos. Dá-se conta de que é cada vez mais difícil vê-los e organizar horários por diferentes questões: trabalho, estudo, namorado(a) etc. E cada vez desfruta mais dessa Cervejinha que serve como desculpa para conversar um pouco.
As multidões já não são ‘tão divertidas’, às vezes até lhe incomodam.

Mas começa a se dar conta de que enquanto alguns eram verdadeiros amigos, outros não eram tão especiais depois de tudo.
Você começa a perceber que algumas pessoas são egoístas e que, talvez, esses amigos que você acreditava serem próximos não são exatamente as melhores pessoas. Ri com mais vontade, mas chora com menos lágrimas e mais dor. Partem seu coração e você se pergunta como essa pessoa que amou tanto e te achou o maior infantil, pôde lhe fazer tanto mal. Parece que todos que você conhece já estão namorando há anos e alguns começam a se casar, e isso assusta!

Sair três vezes por final de semana lhe deixa esgotado e significa muito dinheiro para seu pequeno salário. Olha para o seu trabalho e, talvez, não esteja nem perto do que pensava que estaria fazendo. Ou, talvez, esteja procurando algum trabalho e pensa que tem que começar de baixo e isso lhe dá um pouco de medo.

Dia a dia, você trata de começar a se entender, sobre o que quer e o que não quer. Suas opiniões se tornam mais fortes. Vê o que os outros estão fazendo e se encontra julgando um pouco mais do que o normal, porque, de repente, você tem certos laços em sua vida e adiciona coisas a sua lista do que é aceitável e do que não é. Às vezes, você se sente genial e invencível, outras… Apenas com medo e confuso.

De repente, você trata de se obstinar ao passado, mas se dá conta de que o passado se distancia mais e que não há outra opção a não ser continuar avançando. Você se preocupa com o futuro, empréstimos, dinheiro… E com construir uma vida para você. E enquanto ganhar a carreira seria grandioso, você não queria estar competindo nela.

O que, talvez, você não se dê conta, é que todos que estamos lendo esse texto nos identificamos com ele. Todos nós que temos ‘vinte e tantos’ e gostaríamos de voltar aos 15-16 algumas vezes. Parece ser um lugar instável, um caminho de passagem, uma bagunça na cabeça…

Mas TODOS dizem que é a melhor época de nossas vidas e não temos que deixar de aproveitá-la por causa dos nossos medos… Dizem que esses tempos são o cimento do nosso futuro. Parece que foi ontem que tínhamos 16…

Então, amanha teremos 30?!?! Assim tão rápido?!?"
quinta-feira, 13 de março de 2014 0 comentários

OS JOVENS QUE ESQUECEM A HISTÓRIA E A MEMÓRIA.



É um truísmo que os jovens carecem de conhecimento histórico geral. Mas, na minha experiência, para muitos jovens o passado se achatou em uma grande nebulosa indiferenciada. É por isso que, em uma carta aberta publicada recentemente na revista italiana “L’Espresso”, aconselhei meu neto adolescente a exercitar sua memória aprendendo de cor um longo poema.

Eu temo que as gerações mais jovens de hoje corram o risco de perder o poder da memória, tanto a individual quanto a coletiva. Pesquisas revelaram os tipos de enganos que persistem entre jovens ostensivamente educados: por exemplo, li que muitos universitários italianos acreditam que Aldo Moro foi líder da organização militante Brigadas Vermelhas, quando na verdade ele foi primeiro-ministro da Itália e as Brigadas Vermelhas foram responsáveis por sua morte em 1978.

Escrevi a carta para meu neto em dezembro, mais ou menos na época em que um certo vídeo se tornou viral no YouTube. Era um episódio de “L”Eredità”, um programa de perguntas e respostas da TV italiana que parece escolher os concorrentes com base na boa aparência e na simpatia natural, além de um módico conhecimento geral. (Supostamente isto é para evitar encher o programa com pessoas lindas mas sem noção que espremem seus cérebros só para responder a perguntas de múltipla opção como: Giuseppe Garibaldi foi um ciclista, um explorador, um líder militar ou o inventor da água quente?)

Em um episódio, o anfitrião, Carlo Conti, pediu que os concorrentes identificassem o ano em que Adolf Hitler foi nomeado chanceler da Alemanha. As quatro opções de respostas eram: 1933, 1948, 1964 ou 1979. Os quatro concorrentes que tiveram a oportunidade de responder foram: Ilaria, uma jovem muito bonita; Matteo, um homem forte de cerca de 30 anos, cabeça raspada e corrente no pescoço; Tiziana, uma jovem atraente que também parecia ter cerca de 30 anos; e outra garota chamada Caterina, que usava óculos e tinha um ar de sabe-tudo.

Deveria ser universalmente conhecido que Hitler morreu no fim da Segunda Guerra Mundial, por isso obviamente a resposta só poderia ser 1933 – sendo as outras datas avançadas demais. Mas Ilaria respondeu 1948, Matteo 1964 e Tiziana 1979. Quando chegou a vez de Caterina, ela foi obrigada a escolher 1933, mas fingiu incerteza ao fazê-lo, fosse por ironia ou por surpresa.
Conti também perguntou aos candidatos em que ano o ex-primeiro-ministro italiano Benito Mussolini se encontrou com Ezra Pound; novamente, as opções eram 1933, 1948, 1964 ou 1979. Ninguém é obrigado a saber quem foi Ezra Pound (para constar, um poeta e crítico americano), e se não tivesse sido um teste de múltipla opção eu não poderia ter dado o ano exato. Mas, como Mussolini foi assassinado em 1945, a única resposta possível era 1933. (Confesso que fiquei incrédulo ao saber a extensão em que o ditador se mantinha atualizado sobre poesia americana.) A bela Ilaria, suplicando indulgência com seu doce sorriso, chutou 1964.

Conti não pôde esconder sua incredulidade, nem muitas das pessoas que assistiram e comentaram o vídeo no YouTube. Mas esse momento foi o indício de um problema maior: os quatro concorrentes, que tinham todos aproximadamente de 20 a 30 anos e que podemos supor fossem bastante representativos de sua faixa etária, viram as quatro datas como parte de um passado genérico que ocorreu antes de eles nascerem. Quem sabe se não teriam caído na mesma armadilha se uma das opções de resposta fosse 1492?

Nossa era não é a primeira a experimentar essa homogeneização do passado. Considere por exemplo “O Casamento da Virgem”, que Rafael concluiu em 1504: a pintura mostra pessoas vestidas em trajes da era renascentista, apesar de a cena que retrata evidentemente ter ocorrido muito antes do Renascimento. Hoje é muito mais difícil justificar essa imprecisão das linhas, diante da quantidade de informação histórica amplamente disponível na Internet, em filmes e na televisão. Será possível que nossos quatro candidatos não soubessem distinguir entre o período em que Hitler entrou em cena e aquele em que o homem fez o primeiro pouso na lua? Será que para alguns (ou mesmo muitos) jovens de hoje o conceito de história é unidimensional?

Ainda tenho esperanças, porque soube desse vídeo no YouTube por meu neto de 13 anos e seus colegas de escola, que riram e zombaram quando me contaram a respeito. Talvez alguns jovens estejam aprendendo o valor da memória, afinal.

 UMBERTO ECO

domingo, 9 de março de 2014 0 comentários

A LENDA DA BORBOLETA


" Um dia, uma pequena abertura apareceu em um casulo, um homem sentou e observou a borboleta por várias oras conforme ela se esforçava para fazer com que seu corpo passasse através daquele pequeno buraco. Então pareceu que ela parou de fazer qualquer progresso.
Parecia que ela tinha ido o mais longe que podia e não conseguia ir mais longe.
Então o homem decidiu ajudar a borboleta, ele pegou uma tesoura e cortou o restante do casulo. A borboleta então saiu facilmente. Mas seu corpo estava murcho e era pequeno e
 tinha as asas amassadas 0 homem continuou a observar a borboleta porque ele esperava que, a qualquer momento, as asas dela se abrissem e esticassem para serem capazes de suportar o corpo, que iria se afirmar a tempo.

Nada aconteceu! Na verdade, a borboleta passou o resto da sua vida rastejando com um corpo murcho e asas encolhidas. Ela nunca foi capaz de voar. 0 que o homem, em sua gentileza e vontade de ajudar, não compreendia era que o casulo apertado e o esforço necessário da borboleta para passar através da pequena abertura era o modo com que o fluido do corpo da borboleta fosse para as suas asas de modo que ela estaria pronta para voar uma vez que estivesse livre do casulo ".

Algumas vezes, o esforço é justamente o que precisamos em nossa vida. Se passássemos através de nossas vidas sem quaisquer obstáculos, ficaríamos aleijados. Nós não iríamos ser tão fortes como poderíamos ter sido. "Nós nunca poderíamos voar."
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013 0 comentários

ENTREVISTA DE ELIS REGINA

Entrevista de Elis Regina, feita pela TV Cultura, 14 dias antes da morte dela, em 19 de janeiro de 1982.  


Elis fuma o tempo todo. Volta e meia, levanta o maço de Charme e tira mais um. Está viva, lúcida e agitada como nunca – “É muita loucura e eu sou mais louca do que a loucura que está solta”.  Ninguém diria que aquela mulher inquieta  – “Nasci, fui jogada em um formigueiro e nunca mais consegui parar” –  de inteligência aguda e humor mordaz, falando gatos e cachorros das gravadoras e dando risadas gostosas, estaria morta duas semanas depois, vítima da dobradinha cocaína/álcool, quando ainda não havia completado 37 anos.

 Ironicamente, a certa altura da entrevista, respondendo a uma pergunta, ela diz: “Eu não quero morrer atropelada por um carro qualquer, numa noite qualquer, numa viela escura de São Paulo. Eu tenho três filhos para criar”. Esta é uma entrevista imperdível, sobretudo para quem admirava a maior cantora que o Brasil já produziu.

Não deixe de ver:





No dia 5 de janeiro de 1982, Elis Regina era a convidada do programa Jogo da Verdade apresentado pelo jornalista Salomão Esper . O formato sugeria 3 entrevistadores e perguntas de outras personalidades . Um êxito em matéria de interatividade . Recurso usado até hoje . 
Estão no programa Zuza Homem de Melo e Maurício Kubrusly conceituados jornalistas atentos a cena artística brasileira . 
É sabido por todos que 14 dias depois , Elis nos deixaria portanto esta é sua última entrevista ; Daí a importância em divulgar o registro . É documento histórico .
ATENÇÃO !!! 
Aconteceram cortes durante o tratamento digital para a fonte de origem , mas neste mesmo canal MATEUSGENTE existe a entrevista completa com qualidade ótima de VHS . 
Boa pesquisa . 
Vale a pena conferir também pois são trechos importantíssimos .

Elis mostra lucidez impecável e fala com absoluta propriedade sobre os assuntos apresentados . 

Nossa cultura agradece .

Direitos de imagem da TV CULTURA . 
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013 0 comentários

História – 175 obras para download

HISTÓRIA: teoria e historiografia


Google Drive:
https://drive.google.com/folderview?id=0B2fYI0opdjTIYWlRbVY3dXdPUXc&usp=sharing


uTorrent (via Pirate Bay – cliquem em “get this torrent”):
http://thepiratebay.pe/torrent/9169306

Caso o site acima não esteja acessando, clique nesta pasta onde encontra-se todos os torrents:
https://drive.google.com/folderview?id=0B4UG_F2QeFUlakRydmRmZFpjVkU&usp=sharing

ALFONSO-GOLDFARB, A. O que é a história da ciência
ANKERSMIT, F. Representação e referência
APPLEBAUM, A. Gulag
AQUINO, M. A. Censura, imprensa, Estado democrático (1968-1978)
ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico
ARIÈS, Philippe. O Tempo da História
ARRUDA, J. O trágico 5º centenário do descobrimento do Brasil
AUERBACH, E. Mimesis [em espanhol]
AVELAR, A; FARIA, D; PEREIRA, M. Contribuições à história intelectual do Brasil republicano
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BOTELHO; SCHWARTZ. Enigma Chamado Brasil
BOURDÉ; MARTIN. As Escolas Históricas

BRAUDEL, F. A dinâmica do capitalismo
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BRAUDEL, F. Escritos sobre a História

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BURKE, P; BRIGGS, A. Uma história social da mídia – de Gutenberg à Internet

CARDOSO, C; VAINFAS, R. Domínios da história
CARDOSO, Ciro F. O Egito Antigo
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JUDT, Tony. Pós-guerra – uma história da europa desde 1945

KARNAL, L. História dos Estados Unidos

KOSELLECK, R. Crítica e Crise – uma contribuição à_ patogênese do mundo burguês
KOSELLECK, R. Futuro Passado – contribuição à semântica dos tempos históricos.
KOSELLECK, R. Uma história dos conceitos (problemas teóricos)

KOSSOY, B. Historia e fotografia
LAZZARATO, Maurizio. As revoluções do capitalismo

LE GOFF, J. A bolsa e a vida – a usura na Idade Média
LE GOFF, J. Por amor as cidades – conversações com Jean Lebrun

LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço

LEVI, Giovanni. Herança Imaterial.

LINHARES, M. (org). História Geral do Brasil
LORAUX, Nicole. Maneiras trágicas de matar uma mulher – imaginário na Grécia Antiga
LORIGA, Sabina. O eu do historiador
LOUSADA, F. Dicionário Hieroglifo Português
LUSTOSA, Isabel. D. Pedro I

MACHADO, Roberto. Danação da norma – medicina social e constituição da psiquiatria no Brasil
MAGNOLI, D. Historia das Guerras
MALERBA, J. (org.) A história escrita
MALERBA, J. O Brasil Imperial
MANHEIM, Karl. Liberdade, poder e planificação democrática
MARTINS, J. S. Sobre o Modo Capitalista de Pensar
MELLO E SOUZA, Nelson. Modernidade desacertos de um consenso
MORAES, M. (org). História oral – desafios para o século XXI

NIANE, T. (ed). História geral da África, vol. IV
NIKITIUK, Sônia L. (org). Repensando o ensino de história

NOVAIS, Fernando. O Brasil nos quadros do antigo sistema colonial
NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808)

ORTIZ, A. Egito dos faraós

PEIXOTO, A. História do Brasil
PINSKY, C. Estudos de gênero e história social
PINSKY, Carla (org). Fontes históricas
PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações
POCOCK, J. Introd.; O conceito de linguagem e o métier d’historien
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POUZADOUX, Claude. Contos e Lendas da Mitologia Grega
PRADO JÚNIOR, C. História econômica do Brasil
PRECIADO, Beatriz. Manifesto contra-sexual
PROST, Antoine. Doze Lições Sobre História
RAGO, M; VEIGA-NETO, A. (org). Figuras de Foucault

REIS FILHO, D. (org.). Versões e ficções – o sequestro da história
REIS FILHO, D. As revoluções Russas
REIS FILHO, D; GASPARI, E; BENJAMIN, C. Versões e Ficções – O Seqüestro da História

REMÓND, R. (org.). Por uma história política
REVEL, Jacques. Jogos de Escalas
RIBEIRO, A. Et al. (org). Estudos Africanos – Multiplas Abordagens
RIOUX; SIRINELLI. Para uma historia cultural
ROSANVALLON, P. Por uma história conceitual do político

ROSSI, Paolo. Francis Bacon – da magia à ciência
ROSSI, Paolo. O nascimento da ciência moderna na Europa

RÜSEN, Jörn. História Viva – teoria da história III
RÜSEN, Jörn. Razão Histórica. Teoria da História I
RÜSEN, Jörn. Reconstrução do passado – teoria da história II

SARLO, Beatriz. Tempo passado
SCHWARZ, R. O pai de família e outros estudos
SCHWARZ, R. Sequências brasileiras

SCOTT, Joan. A invisibilidade da diferença
SCOTT, Joan. Gênero – uma categoria útil para análise histórica
SILVA, K; SILVA, M. Dicionário de conceitos históricos.

TARKOVSKI, A. Esculpir o tempo
TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América – Livro I, Leis e costumes
TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América – Livro II, Sentimentos e opiniões
TUCÍDIDES. História da guerra do Peloponeso

VERNANT, J-P. As Origens do Pensamento Grego

VEYNE, P. (org.). História da Vida Privada, vol. 1. Do Império Romano ao Ano Mil
VEYNE, P. Acreditavam os gregos em seus mitos
VEYNE, P. Como se escreve a historia
VEYNE, P. Foucault, o Pensamento, a Pessoa
VEYNE, P. O Império Greco Romano (1º cap.)
VEYNE, P. O inventário das diferenças

VISENTINI, P. A revolução vietnamita – da libertação nacional ao socialismo

WHITE, H. El contenido de la forma

WOLKMER, Antônio Carlos. História do direito no Brasil.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013 1 comentários

ESPEREMOS


Há outros dias que não têm chegado ainda,
 que estão fazendo-se
 como o pão ou as cadeiras ou o produto
 das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
 que levantam e pesam e preparam
 certos dias amargos ou preciosos
 que de repente chegam à porta
 para premiar-nos
 com uma laranja
 ou assassinar-nos de imediato.


( Pablo Neruda )
quinta-feira, 24 de outubro de 2013 0 comentários

UM AMOR TÃO BOM



Casados eles não pareciam ser -não um com o outro-, e aquele jantar cedo, num restaurante modesto, comum, era muito bom de se ver.
Estavam sentados um em frente ao outro, e parecia claro que não iriam para a mesma casa depois do jantar, não dormiriam nem acordariam juntos. Por isso, talvez, tinham tanto a se dizer -e se diziam.
Ela às vezes passava a mão na testa dele, afastando uma mecha de cabelo; daí a pouco ele devolvia o carinho e segurava a mão dela num gesto rápido, isso por cima dos pratos, sem que nada fosse fora de propósito nem inadequado, como nunca são os gestos que saem do coração.
Não havia entre eles aquele clima de urgência que precede a ida a um motel, muito pelo contrário; parecia, isso sim, que eles haviam passado a tarde se amando e depois foram a um restaurante, daqueles em que não há risco de encontrar nenhum amigo, para ficarem juntos um pouco mais, o tempo que ainda tinham, sem inquietação, pelo prazer da companhia um do outro. E os carinhos trocados não eram os da paixão, mas os do amor; de um amor sólido e profundo.
Quem mora junto não conversa tanto, olho no olho, porque sabe que tem tempo pela frente: a noite inteira, talvez o resto da vida. Já eles falavam, e os assuntos não eram esses de namorados; falavam de tudo, interessados um no que o outro dizia, trocavam idéias como se fossem dois grandes amigos, o que é raro entre homem e mulher. Ele talvez falasse de um negócio que estava fazendo, ela talvez de um filho (só dela) com problemas; aí, de repente, um carinho -sem olhares melosos, nada. Apenas a necessidade de tocar no outro, só isso. Estavam ali, inteiros, muito próximos e muito seguros.
Ela usava um suéter com um pequeno decote; num determinado momento, ele passou o braço por cima da mesa, botou a mão no ombro dela, escorregou por dentro do suéter pelas costas e ficou uns momentos passando a mão, aquela mão forte de dono, como recordando a tarde que passaram juntos.
Ela não era nem jovem nem linda, nem ele. Eram pessoas absolutamente normais, banais mesmo, daquelas que não chamam a atenção, para quem não se olha duas vezes -talvez nem uma. Mas naquela mesa pequena daquele restaurante banal havia tudo o que uma mulher e um homem podem querer um do outro: confiança, amizade, amor, paixão -mesmo que discreta-, sexo bem resolvido e segurança. Eles iriam se separar daí a pouco, sentiriam falta um do outro, mas sem angústia ou desespero, sabendo que se encontrariam de novo no dia seguinte ou na semana seguinte, confiando no seu próprio desejo e no do outro, porque aquele amor tinha essa coisa tão rara nos amores em geral: era sólido.
Ele pediu a conta, os dois saíram abraçados normalmente; na esquina, ele chamou um táxi para ela, se beijaram rapidamente, ele ficou olhando até o táxi desaparecer, pegou o dele e a noite -eram 9h- acabou por aí.
Acabou é modo de dizer, porque essas noites tão boas não se acabam assim. Ela foi dormir pensando nele, ele pensando nela, e eu pensando neles. Pensando e imaginando quantas pessoas, neste mundo de tantas paixões, vaidades, ansiedades, desvarios, terão tido a sorte de viver um amor assim tão bom.
Não, o amor não é lindo, como se diz banalmente: o amor é muito bonito quando é de verdade, e o deles era.

DANUZA LEÃO
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PAROLAGEM DA VIDA






Como a vida muda.
 Como a vida é muda.
 Como a vida é nula.
 Como a vida é nada.
 Como a vida é tudo.
 Tudo que se perde
 mesmo sem ter ganho.
 Como a vida é senha
 de outra vida nova
 que envelhece antes
 de romper o novo.
 Como a vida é outra
 sempre outra, outra
 não a que é vivida.
 Como a vida é vida
 ainda quando morte
 esculpida em vida.
 Como a vida é forte
 em suas algemas.
 Como dói a vida
 quando tira a veste
 de prata celeste.
 Como a vida é isto
 misturado àquilo.
 Como a vida é bela
 sendo uma pantera
 de garra quebrada.
 Como a vida é louca
 estúpida, mouca
 e no entanto chama
 a torrar-se em chama.
 Como a vida chora
 de saber que é vida
 e nunca nunca nunca
 leva a sério o homem,
 esse lobisomem.
 Como a vida ri
 a cada manhã
 de seu próprio absurdo
 e a cada momento
 dá de novo a todos
 uma prenda estranha.
 Como a vida joga
 de paz e de guerra
 povoando a terra
 de leis e fantasmas.
 Como a vida toca
 seu gasto realejo
 fazendo da valsa
 um puro Vivaldi.
 Como a vida vale
 mais que a própria vida
 sempre renascida
 em flor e formiga
 em seixo rolado
 peito desolado
 coração amante.
 E como se salva
 a uma só palavra
 escrita no sangue
 desde o nascimento:
 amor, vidamor!


Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 14 de outubro de 2013 0 comentários

PAROLAGEM DA VIDA






Como a vida muda.
 Como a vida é muda.
 Como a vida é nula.
 Como a vida é nada.
 Como a vida é tudo.
 Tudo que se perde
 mesmo sem ter ganho.
 Como a vida é senha
 de outra vida nova
 que envelhece antes
 de romper o novo.
 Como a vida é outra
 sempre outra, outra
 não a que é vivida.
 Como a vida é vida
 ainda quando morte
 esculpida em vida.
 Como a vida é forte
 em suas algemas.
 Como dói a vida
 quando tira a veste
 de prata celeste.
 Como a vida é isto
 misturado àquilo.
 Como a vida é bela
 sendo uma pantera
 de garra quebrada.
 Como a vida é louca
 estúpida, mouca
 e no entanto chama
 a torrar-se em chama.
 Como a vida chora
 de saber que é vida
 e nunca nunca nunca
 leva a sério o homem,
 esse lobisomem.
 Como a vida ri
 a cada manhã
 de seu próprio absurdo
 e a cada momento
 dá de novo a todos
 uma prenda estranha.
 Como a vida joga
 de paz e de guerra
 povoando a terra
 de leis e fantasmas.
 Como a vida toca
 seu gasto realejo
 fazendo da valsa
 um puro Vivaldi.
 Como a vida vale
 mais que a própria vida
 sempre renascida
 em flor e formiga
 em seixo rolado
 peito desolado
 coração amante.
 E como se salva
 a uma só palavra
 escrita no sangue
 desde o nascimento:
 amor, vidamor!


Carlos Drummond de Andrade
 
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