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segunda-feira, 12 de setembro de 2016 0 comentários

MENINO DE ILHA



Havia ocasiões em que adormecia sem dormir, numa semiconsciência dos carinhos do vento e da água no meu rosto e nos meus pés. É que vinha-me do Infinito uma tão grande paz e um tal sentimento de poesia que eu me entregava não a um sono, que não há sono diante do Infinito, mas a um lacrimoso abandono que acabava por raptar-me de mim mesmo. E eu ia, coisa volátil, ao sabor dos ventos que me levavam para aquele mar de estrelas, sem forma e corpo e ouvindo o breve cochicho das ondas que vinham desaguar nas minhas pernas. 

(MENINO DE ILHA, Vinicius de Morais)
quarta-feira, 9 de abril de 2014 0 comentários

SONETO DE FIDELIDADE


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Poema de Vinícios de Moraes

quinta-feira, 28 de novembro de 2013 1 comentários

VERBO INFINITO

 




















Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar


Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, e ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar


E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito


E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito.

VINICIUS DE MORAES
terça-feira, 22 de outubro de 2013 0 comentários

A TEORIA DOS MÓDULOS


A cada ato de ódio e ressentimento, corresponde uma reação oposta e imediatamente contrária: um ato de amor. O homem que tem na mão o poder de apertar o botão que aciona o mecanismo da guerra atômica não sabe, ou prefere fingir ignorar, que o botão do seio da mulher amada, de cujo corpo ele usufrui na relação carnal, tem um poder infinitamente maior que qualquer arma nuclear, ou sua soma. Dali nasce a vida, de um contato de dois corpos feitos para se amar; gozar da plenitude física e espiritual desse amor e continuar a vida, no ato da criação.
 

Nada existe de mais revolucionário – porque evolucionário – que a consciência de que só o amor pode salvar o mundo. O amor é a única arma de que dispõe o homem para atravessar uma existência fatalizada pelo sofrimento de nascer, crescer, conviver, trabalhar, amadurecer e por fim morrer dentro de uma sociedade condicionada pelo lucro, pelo prazer e pela intolerância. Uma sociedade cuja cúpula odeia o amor e o considera, no fundo, uma desconversa diante de entidades mais importantes, quais sejam o poder econômico e político, o sentimento de mando, a superioridade hierárquica e de casta: a Supremacia e o Preconceito, enfim, sob todas as suas formas.
 


O terrível nisso tudo é que se vai fazendo cada dia mais difícil amar, dentro de um mundo neurotizado por mil problemas marginais aos da verdadeira existência, e coexistência, com o resultado de uma debilitação existencial enorme. Está ficando cada dia mais difícil amar direito, amar como deve ser: com o verdadeiro encontro de almas e de corpos totalizados num grande, num imenso entendimento comum. Nada me parece mais importante que a busca desse encontro, sem o qual nenhuma felicidade é possível, nenhum diálogo é provável, nenhum êxtase é absoluto.
 

Eu estou cada vez mais convencido de que o crescente desajustamento entre os sexos, a que corresponde também o crescente aumento de um sexo intermediário, é fundamentalmente um problema da personalidade. É o que procuro explicar aqui com o que chamo de Teoria dos Módulos. Quando dois seres se apaixonam e se querem unir, eles são como dois módulos lunares gravitando no sentido de um indispensável acoplamento. Até aí, cada um está, como se diz agora, “na sua”. Mas o grande, o infinito impulso de ambos é estar “na deles”.

E enquanto seu lobo não vem, as personalidades-módulos se aproximam, se estudam os ângulos de encaixe, se tateiam, se provam, se experimentam. A aspiração maior, como é claro, é o acoplamento o mais rápido possível. O problema é que, nesse interregno, as personalidades se expõem desvairadamente, naquele anseio de absoluto que o amor exige, naquele sentimento de dar-se e receber em troca. E aí é que está the heart of the matter, o nó da questão. Porque o amor é ao mesmo tempo maravilhosamente dadivoso e furiosamente antropofágico.
 

Assim, nesse constante confronto, a personalidade mais dependente começa a aderir à mais rica e, quando menos se espera, a passar para o módulo da outra, por isso que é tão mais confortável, e dá tão menos trabalho, largar o corpo. E deixa o módulo próprio vagando sozinho no espaço. Resultado: acoplamento impossível. Consequências futuras: a personalidade mais rica e forte começa a dominar instintivamente a mais pobre e dependente. Panorama geral: a quantidade infinita de mulheres despersonalizadas, servilmente submissas, verdadeiras escravas de homens déspotas, que fazem delas gato e sapato. Ou, menos frequentemente, o desagradável caráter de mulheres dominadoras, que humilham o homem que têm sempre que podem.
 

Esse tipo de união, a meu ver, nunca é feliz, por isso que evidencia a omissão de uma das personalidades em jogo. Para que haja uma verdadeira felicidade, os dois têm que “estar na deles” ao mesmo tempo em que cada um nunca deixa de “estar na sua”. É a minha Teoria dos Módulos. Comigo está dando certo. Façam muito bom proveito.

 Por Vinícius de Moraes
sábado, 21 de setembro de 2013 2 comentários

A ARTE DE SER VELHO


É curioso como, com o avançar dos anos e o aproximar da morte, vão os homens fechando portas atrás de si, numa espécie de pudor de que o vejam enfrentar a velhice que se aproxima. Pelo menos entre nós, latinos da América, e sobretudo, do Brasil. E talvez seja melhor assim; pois se esse sentimento nos subtrai em vida, no sentido de seu aproveitamento no tempo, evita-nos incorrer em desfrutes de que não está isenta, por exemplo, a ancianidade entre alguns povos europeus e de alhures.

Não estou querendo dizer com isso que todos os nossos velhinhos sejam nenhuma flor que se cheire. Temo-los tão pilantras como não importa onde, e com a agravante de praticarem seus malfeitos com menos ingenuidade. Mas, como coletividade, não há dúvida que os velhinhos brasileiros têm mais compostura que a maioria da velhorra internacional (tirante, é claro, a China), embora entreguem mais depressa a rapadura.

Talvez nem seja compostura; talvez seja esse pudor de que falávamos acima, de se mostrarem em sua decadência, misturado ao muito freqüente sentimento de não terem aproveitado os verdes anos como deveriam. Seja como for, aqui no Brasil os velhos se retraem daqueles seus semelhantes que, como se poderia dizer, têm a faca e o queijo nas mãos. Em reuniões e lugares públicos não têm sido poucas as vezes em que já surpreendi olhares de velhos para moços que se poderiam traduzir mais ou menos assim: "Desgraçado! Aproveita enquanto é tempo porque não demora muito vais ficar assim como eu, um velho, e nenhuma dessas boas olhará mais sequer para o teu lado..."
Isso, aqui no Brasil, é fácil sentir nas boates, com exceção de São Paulo, onde alguns cocorocas ainda arriscam seu pezinho na pista, de cara cheia e sem ligar ao enfarte. No Rio é bem menos comum, e no geral, em mesa de velho não senta broto, pois, conforme reza a máxima popular, quem gosta de velho é reumatismo. O que me parece, de certo modo, cruel. Mas, o que se vai fazer?

Assim é a mocidade- ínscia, cruel e gulosa em seus apetites. Como aliás, muito bem diz também a sabedoria do povo: homem velho e mulher nova, ou chifre ou cova.

Na Europa, felizmente para a classe, a cantiga soa diferente. Aliás, nos Estados Unidos dá-se, de certo modo, o mesmo. É verdade que no caso dos Estados Unidos a felicidade dos velhos é conseguida um pouco à base da vigarista; mas na Europa não. Na Europa vêem-se meninas lindas nas boates dançando cheek to cheek com verdadeiros macróbios, e de olhinho fechado e tudo. Enquanto que nos Estados Unidos eu creio que seja mais... cheek to cheek. Lembro-me que em Paris, no Club St. Florentin, onde eu ia bastante, havia na pista um velhinho sempre com meninas diferentes. O "matusa" enfrentava qualquer parada, do rock ao chá-chá-chá e dançava o fino, com todos os extravagantes passinhos com que os gauleses enfeitam as danças do Caribe, sem falar no nosso samba. Um dia, um rapazinho folgado veio convidar a menina do velhinho para dançar e sabem o que ela disse? - isso mesmo que vocês estão pensando e mais toda essa coisa. E enquanto isso, o velhinho de pé, o peito inchado, pronto para sair na física.

Eu achei a cena uma graça só, mas não sei se teria sentido o mesmo aqui no Brasil, se ela se tivesse passado no Sacha's com algum parente meu. Porque, no fundo, nós queremos os nossos velhinhos em casa, em sua cadeira de balanço, lendo Michel Zevaco ou pensando na morte próxima, como fazia meu avô. Velhinho saliente é muito bom, muito bom, mas de avô dos outros. Nosso, não.

VINICIUS DE MORAES

domingo, 28 de abril de 2013 0 comentários

SONETO DE FIDELIDADE



De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento. 

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa dizer do meu amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Vinícius de Moraes)




              Mucamas do PCdoB
          PROSTITUIÇÃO NO PCdoB
terça-feira, 9 de abril de 2013 0 comentários

POEMA PARA TODAS AS MULHERES



No teu branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!

Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.

Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pelos...

Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o cântico dos cânticos

Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha
quero o colo de Nossa Senhora!

(VINICIUS DE MORAES)
 
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