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terça-feira, 17 de março de 2015 0 comentários

PAI DE FIM DE SEMANA



Quem disse que é fácil ser Pai de Fim de Semana?
Só, que às vezes, é o que resta...

Abro a porta, e o silêncio da casa me invade. Teus vestígios ainda estão por todos os lados. As almofadas reviradas na sala tem o seu jeitinho. A boneca e os papéis de chiclete no tapete, são pura arte. Arte de ser feliz. Entro na casa, e tua ausência me recebe em todos os cômodos. Dói.

A bagunça que nossa alegria deixou eu não vou arrumar, ela é marca da tua presença. Tua dança, ainda dança, num balé cheio de graça, alegria e, agora, saudade. Tua voz, teus gritinhos, tua inocência e teus risos ecoam como a mais doce música, e preenchem o silêncio do resto de domingo sem solução. No banheiro, a toalha e a marca dos teus pezinhos no chão ainda úmido. E, por toda a casa, as cores dos teus brinquedos e da tua voz. Teu perfume de anjo está por todos os cantos da casa e da minha alma. Tua presença é tão forte que ainda posso sentir teus bracinhos em volta do meu pescoço, apertando, e, essa sensação é que não me deixa sufocar de saudade. Dói.

Senti vontade de chorar, mas tomei água e passou, você não é tristeza, é alegria. Tua chupeta em cima do telefone. O copo em que bebeste água. A jujuba embaixo do sofá. O desenho na parede, os papéis picados. Nossas brincadeiras, tuas mãozinhas fazendo carinho na minha cabeça de uma forma única no universo, que só você sabe, e a batata frita no chão da cozinha.

Trocar tua roupinha, calçar teus sapatos, pentear teus cabelos, assoar teu nariz. Ouvir tua voz me chamando de papai. Teus olhinhos puxados, teu sorriso sapeca. Tuas perguntas me ensinando a aprender cada vez mais a beleza e a força da vida.

Não sou teu pai só no fim de semana, o sou a cada segundo de todos os minutos, de todos os dias de minha vida. Cada sorriso meu, traz a presença da tua alegria. Sou um poço sem fundo, que só será preenchido com a tua felicidade. Te quero livre, forte e segura. Quero ser teu porto seguro, teu amigo, teu pai. O que mais desejo é que sintas a mesma felicidade que me proporcionas. Sou feliz a cada sorriso teu. E teu sorriso é tão poderoso que irá me fazer feliz o resto da semana sem você.

No dia seguinte, a casa já estará toda arrumada, mas tua presença permanecerá intacta, eterna e inesquecível.

E esperaremos, eu e nossa casa, por toda a semana, ansiosos por tua bagunça, tuas cores e tua alegria.

Mais de vinte anos depois de ter escrito essas linhas, posso dizer com o maior orgulho que um pai pode ter: minha filha é, hoje, uma pessoa do bem, independente, uma profissional e artista altamente competente e, principalmente, minha melhor e grande amiga.

Edmir Silveira 
sábado, 21 de junho de 2014 0 comentários

O AMOR SE ESCONDE




Eu te conheço, antes mesmo de te conhecer, em meus desejos.
Você é sempre linda, mas eu nunca consigo ver seu rosto.

A cada sonho apareces diferente.
Mas seu olhar te revela e me hipnotiza de novo,
misturando carinho, tesão e amor,
em doses muito, muito precisas.

Sua pele sempre parece feita de tudo,
um pouco de carne, um pouco de veludo,
um raio de sol, um raio de lua,
É a felicidade sorrindo, a alegria nua

Você é o alimento dos meus sonhos.
Me faz sentir tudo que os sentidos podem alcançar.
O seu cheiro, o som da sua voz, o toque na sua pele, o gosto do seu desejo.

Te reconheço pelo olhar, seja com cabelos louros, castanhos ou escuros.
Te reconheço pelo cheiro do seu couro cabeludo.
Reconheço cada parte de você inteira, em cada novo corpo.
Te redescobrindo sempre. Te amando sempre.

Mas, de repente você some, desaparece sem avisar,
deixando no seu lugar, onde você existia,
uma pessoa que não conheço. A casca do amor.

Mas, sempre reapareces de novo, perfeita, e cada vez diferente.
Com outro nome, com outros corpos, outros cabelos e outros olhos.
E durante algum tempo você permanece ao meu lado.
É quando sou feliz. É quando amo. É quando vivo.

Amei todos os seus nomes, todos os seus corpos e todas as suas vozes.

Mas, agora, chegou a hora de nos conhecermos sem máscaras,
para nunca mais desaparecermos um do outro.
Estou cansado de te perder.

Edmir Silveira
sexta-feira, 20 de junho de 2014 0 comentários

A DANÇA DA VIDA

Ela chegou de novo, de repente, de longe, de sempre.


Mas nossas vidas sempre foram assim, feitas de surpresas impossíveis.
Desde o dia em que,aos 16 anos, antes de estarmos presos a tudo, resolvemos simplesmente que iríamos nos amar pra sempre. Do nosso jeito. Maior que tudo. Como só duas crianças podem sonhar. Pra sempre.
Sempre não é aqui, não é agora, mas até pode ser, porque sempre não tem hora, é sempre.

E nosso tempo sempre foi bem diferente.
De repente, presente, assim não mais que de repente. Quando era necessário, sem que nenhum dos dois soubesse que éramos necessários ao outro naquele momento.

Ela é uma verdadeira bailarina. Ela não escolheu, foi escolhida. Sua alma nascera com um propósito determinado e maior que ela: dançar.

Me parece que toda mulher escolhe a dança, mas a dança escolhe poucas.
Ela rodou o mundo, os grandes palcos, as maiores cidades, realizou tudo que os mais impossíveis sonhos poderiam imaginar. E, a minha bailarina, chegou de novo, quando eu mais precisava da sua dança. Agora.

Não fazia tanto tempo que não nos víamos, mas fazia muito tempo que eu não precisava tanto daquele abraço. Daquele colo. Daquela dança. Seus olhos se conectaram aos meus e imediatamente lacrimejaram, como os meus. Por uma dor que era só minha. Isso é a conexão maior que uma alma pode fazer com outra. O silêncio de quem conhece os sentimentos do outro pelo jeito de olhar.

Ela sabia que a minha tristeza nem minhas lágrimas tinham a ver com ela nem com aquele encontro. Mas sabia que tinha a ver com a minha vida. E isso era o que importava pra ela. Era só o que importava. E isso era tudo que eu precisava ouvir, que ela se importava com o que eu sentia. Mas, antes que tudo pudesse ir por outro caminho , ela começou a dançar pelo quarto, uma música imaginária. Sua dança clássica, elegante, perfeita, possível apenas para um corpo que vive diariamente para aquele propósito,e por isso, perfeito em cada detalhe tanto nos movimentos quanto na nudez de uma pele de veludo. Perguntei se ela queria que ligasse alguma música, ela se aproximou, me abraçou, começou a dançar sobre meu corpo, e respondeu, iluminando meu coração como um milagre:
- Minha música é você.

E mais uma vez a mágica entrou na minha vida da forma mais real, bonita e necessária que poderia existir. E me fez renascer.

Edmir Silveira


quarta-feira, 18 de junho de 2014 1 comentários

AMAR E SER FELIZ



Nos primeiros dias do ano, caiu-me nas mãos, presenteado por uma amiga, um livro. Eu não a conhecia antes, e essa amiga passou tão rápido na minha vida, que acho que a função dela era só me dar esse livro. Como uma fada que a vida manda pra gente com a única função de nos fazer algum bem.
Ela me fez prometer que o leria.

Pois é, não é que o livro realmente me impressionou como há muito não acontecia?

Me identifiquei profundamente. Trata-se da transcrição de uma palestra do filósofo francês contemporâneo André Comte-Sponville. O nome do livro é Felicidade, desesperadamente. Ele faz um passeio pela história da filosofia e utiliza as vários correntes filosóficas para apoiar seu próprio raciocínio.

O livro me fez compreender o que sempre pensei e nunca havia conseguido enunciar e entender daquela forma tão clara e óbvia.

A identificação com a condução do assunto proposta pelo escritor foi completa. A primeira coisa que o livro me fez ver, é que eu havia, finalmente, compreendido o que é amar de verdade. Não de verdade no sentido de intensidade, mas no sentido de profundidade e amplitude. E, também, no sentido da ação.

O verdadeiro amor desperta nosso lado melhor. O lado mais humano, amigo, parceiro. Temos vontade de fazer coisas que façam o outro feliz. E, por causa dessas nossas atitudes bonitas para com o ser amado, nos vemos mais bonitos. Nossa autoestima aumenta, o que nos faz amar o amor que sentimos pela outra pessoa. E esse ciclo se fecha ao sermos retribuídos e, por isso, amamos ainda mais a pessoa que nos faz sentir todo esse prazer de viver.

 E, que aumenta na medida em que transformamos esse amor em atitudes, nos fazendo capazes de sentir felicidade pela felicidade do outro, prazer pelo prazer do outro. Nesses momentos conseguimos ser verdadeiramente felizes.
Cada um do seu jeito, com as suas verdades. Unidos apenas pela felicidade de estar junto. Pela alegria e o prazer que o amor proporciona.

Mas, a felicidade não existe para o amor dos imaturos, do desejo egoísta que quer o objeto porque não o tem. Do que quer a posse, o controle, quer o poder de manipular o outro através dos sentimentos. Este, está condenado a ser infeliz .
É esse pensamento imaturo que ainda sustenta a formalidade dos antigos modelos de casamento e suas subformas como uma meta de vida para a maioria.

O amor de verdade trás com ele a possibilidade real de felicidade. Ele nos faz sentir amor apenas com a simples ideia de que a pessoa amada existe. E que, também, nos ama. Mesmo que não estejamos naquele momento fisicamente próximos. A simples ideia da existência do outro já é razão de sentir alegria.

Não existe sentimento de posse. Existe desejo. Não existe obrigação. Existe vontade. Cada encontro acontece porque o desejo impulsionou. Porque trás prazer, felicidade. Trás alegria, amor.

O prazer de se sentir o objeto de desejo do nosso objeto de desejo é indescritível, é o momento mais mágico da vida. É a felicidade verdadeira.

O amor sem posse, apenas pela alegria de amar e de sentir prazer com o prazer do outro e felicidade com a felicidade do outro.

Edmir Silveira
sexta-feira, 28 de março de 2014 0 comentários

UM OUTRO MUNDO




Depois da noite, amanheceu na gente,
Nossos corpos se reconheceram quentes,
Revelando os mundos que nem a gente entende.

E foi crescendo tanto, de novo e tão de repente,
Que derrubou o muro, que havia dentro da gente.
E se fez, de novo, um mundo todo à parte,
Construído pela arte, que nosso amor sabe fazer

Onde a alegria manda, onde o desejo ganha,
Onde o tocar das bocas é a fala mais urgente,
É nosso mundo, além do mundo.
Somos nós, muito além da gente.
Explodindo em gozo, só alma, sem mente,
Não somos nada, não somos nem a gente,
Somos a felicidade que nem o sonho sonha,
Porque ao sonho falta a tua carne,
faltam as tuas unhas, faltam os teus dentes.

Edmir Silveira
domingo, 1 de julho de 2012 0 comentários

MINHA TUDO





Tem horas que a saudade bate forte,
Dos toques leves e macios,
Do cheiro, das noites, dos cios

E chega a ser violento,
A falta que faz o tempo,
Desperdiçado sem você.

Como se faltasse o chão,
Como se o coração ameaçasse fugir correndo,
Na velocidade do vento, em busca de cada parte de ti
Dos laços, dos teus cabelos,
Dos braços dos teus carinhos,
Da plenitude do teu ninho
Do colo do teu paraíso

Porque tudo que for preciso
Para o paraíso existir
Existe quando me sinto,
Envolvendo e envolvido,
Pelo teu todo infinito
Maior do que tudo bonito
E do tamanho exato de amar.

(Edmir Silveira)

 
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