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domingo, 10 de junho de 2012 0 comentários

CARTA AO AMOR QUE CHEGA


Eu estava quieto no meu canto, o coração ainda ferido por amores idos, e lá vem você surgida do nada, o teu olhar brilhante, seu jeito de mexer com os cabelos, a sua voz baixa e o seu humor sofisticado e fácil me atingiram, me apaixonei. Mas sou obrigado por razões íntimas a te avisar, não em tom de ameaça, muito pelo contrário, mas não vou negar que seja um aviso, tome cuidado com o que vais fazer comigo. 

Abrirei a porta do carro para que te acomodes, nos restaurante puxarei a cadeira para que te sentes, ao caminhar pelas ruas de mãos dadas, terei sempre o cuidado de te posicionar para o lado de dentro, demonstrando o carinho e o cuidado que terei contigo, escreverei poesias de amor, terei ouvidos atentos para lhe escutar falar, chorarei contigo as suas tristezas, pois elas serão minhas também, ficarei feliz com as suas conquistas, pois me sentirei participante delas, te amarei sem te sufocar ou impor condições e lhe surpreenderei com flores sem que você por elas espere. 

Podem parecer coisas antigas, mas eu sou antigo em amar e é assim que eu sou com quem amo, só te peço encarecidamente que se um dia quiseres ir embora, e estarás livre para ir no momento que desejares, saia deste caso como entrastes nele, pela porta da frente. Respeite um coração que ficará novamente machucado em mais uma tentativa, portanto não saia abruptamente para atender um novo capricho ou para atender o chamamento de um antigo, pois lembre-se que fecharei a porta e ela jamais se abrirá novamente para você, não importando o tamanho de seu arrependimento, talvez a porta se abra novamente, mas para um novo amor, não mais para você. 

Não como na mão de quem brinca com a minha emoção, por esta razão pense bem antes de dar os primeiros passos nesta relação de amor comigo, se viestes para ver passar a chuva ou para viver um grande amor, digo isso, porquê sei escrever versos para a mulher amada com a mesma desenvoltura para virar-lhe as costas e desprezá-la. 

E tenho a certeza, perdoe-me pela presunção, que o tempo e as suas andanças pela vida te machucarão o coração, e te farão ver e sentir a perda, e não nego querida, ficarei renovado pela vingança de te ver sofrer, pois não voltarás a ter o que estava em suas mãos. O meu amor.

(Antonio C. Macedo)
sexta-feira, 23 de março de 2012 0 comentários

Aceitarás o amor como eu o encaro ?...



Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.

(Mario de Andrade)


quarta-feira, 14 de março de 2012 0 comentários

POEMA EM LINHA RETA



POEMA EM LINHA RETA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Uma visão breve sobre a vida e a obra do maior poeta da língua portuguesa:

- 1888: Nasce Fernando Antônio Nogueira Pessoa, em Lisboa.

- 1893: Perde o pai.

- 1895: A mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa. Partem para Durban, África do Sul.

- 1904: Recebe o Prêmio Queen Memorial Victoria, pelo ensaio apresentado no exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança.

- 1905: Regressa sozinho a Lisboa.

- 1912: Estréia na Revista Águia.

- 1915: Funda, com alguns amigos, a revista Orpheu.

- 1918/1921: Publicação dos English Poems.

- 1925: Morre a mãe do poeta.

- 1934: Publica Mensagem.

- 1935: Morre de complicações hepáticas em Lisboa.


Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 418.
 
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