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quarta-feira, 5 de abril de 2017 0 comentários

TU FALAS E EU NÃO ENTENDO



A maioria das pessoas não sabem interpretar texto, também não sabem interpretar ações e muito menos outras pessoas. 


Por 13 anos fiz parte de um partido comunista e sempre fui uma voz desentoante, pois nunca encarei o marxismo como religião,  sempre falei que eramos comunistas que bebiam coca-cola e que uma revolução no Brasil só ocorreria se chegássemos ao mais profundo caos. Coisa pouco provável de acontecer, já que, o brasileiro sempre dá um jeitinho. 

No dia de votação municipal encontrei um velho amigo na rua e ele me disse: - mas não era você que queria o tempo todo FAZER A REVOLUÇÃO? 

Aff, como assim eu empentelhavà-o querendo fazer a dita revolução?  Nunca  sequer o convidei para uma reunião de partido e quando fui candidata à deputada estadual ele só ficou sabendo 2 anos depois  Então se algo assim saiu de minha boca foi por alguma zombaria. 
O fato é que por maores que sejam meus argumentos jamais irei persuadir meu amigo que isso jamais ocorreu; ele deve ter estado com algum comunista do tipo muito idiota, pior do que um crente fanático e no pensamento dele me associou como sendo da mesma forma. 

Digo e faço uma determinada coisa, mas algumas pessoas tendem a ter ideias pré-concebidas já fixadas, logo o seu ponto de vista ainda que errado, sempre permanecerá. Por isso tento dentro do possível não contrariar ninguém mesmo me irritando por ser mal interpretada. 

O que relatei é apenas um exemplo, mas tenho deparado com a falta de entendimento constantemente, mesmo em coisas muito simples. Me parece que todos queremos falar alguma coisa e sermos compreendidos, porém quase ninguém está disposto a ouvir  o outro. Então acabamos em uma caverna solitária ouvindo os ecos de nós mesmo. 

Eu acreditava ser boa em me comunicar com as pessoas, hoje percebo que não, pois ser entendida não depende apenas do quão bem me expresse, mas muito mais da capacidade de interpretação do outro. E é nessa hora que a coisa fica feia. 

"Só me dirijo às pessoas capazes de me entender, e essas poderão ler-me sem perigo".

Marquês de Sade

quinta-feira, 10 de março de 2016 0 comentários

JULGAMENTO APRESSADO



Uma garota segurava em suas mãos duas maçãs. Sua mãe entrou e lhe pediu com uma voz doce e um belo sorriso:

– Querida, você poderia dar uma de suas maçãs para mamãe?

A menina levanta os olhos para sua mãe durante alguns segundos, e morde subitamente uma das maçãs e logo em seguida a outra.

A mãe sente seu rosto se esfriar e perde o sorriso. Ela tenta não mostrar sua decepção quando sua filha lhe dá uma de suas maçãs mordidas. A pequena olha sua mãe com um sorriso de anjo e diz:

– A mais doce é essa!

Pouco importa quem você é, que você tenha experiência, seja competente ou sábio. Espere para fazer seu ‪‎julgamento. Dê aos outros o privilégio de poder se explicar. Mesmo que a ação pareça errada, o motivo pode ser bom. Pense nisso!
quinta-feira, 5 de abril de 2012 0 comentários

Três Tesouros Perdidos/conto


Uma tarde, eram quatro horas, o sr. X… voltava à sua casa para jantar. O apetite que levava não o fez reparar em um cabriolé que estava parado à sua porta. Entrou, subiu a escada, penetra na sala e… dá com os olhos em um homem que passeava a largos passos como agitado por uma interna aflição.

Cumprimentou-o polidamente; mas o homem lançou-se sobre ele e com uma voz alterada, diz-lhe:

— Senhor, eu sou F…, marido da senhora Dona E…

— Estimo muito conhecê-lo, responde o sr. X…; mas não tenho a honra de conhecer a senhora Dona E…

— Não a conhece! Não a conhece! … quer juntar a zombaria à infâmia?

— Senhor!…

E o sr. X… deu um passo para ele.

— Alto lá!

O sr. F… , tirando do bolso uma pistola, continuou:

— Ou o senhor há de deixar esta corte, ou vai morrer como um cão!

— Mas, senhor, disse o sr. X…, a quem a eloqüência do sr. F… tinha produzido um certo efeito, que motivo tem o senhor?…

— Que motivo! É boa! Pois não é um motivo andar o senhor fazendo a corte à minha mulher?

— A corte à sua mulher! não compreendo!

— Não compreende! oh! não me faça perder a estribeira.

— Creio que se engana…

— Enganar-me! É boa! … mas eu o vi… sair duas vezes de minha casa…

— Sua casa!

— No Andaraí… por uma porta secreta… Vamos! ou…

— Mas, senhor, há de ser outro, que se pareça comigo…

— Não; não; é o senhor mesmo… como escapar-me este ar de tolo que ressalta de toda a sua cara? Vamos, ou deixar a cidade, ou morrer… Escolha!

Era um dilema. O sr. X… compreendeu que estava metido entre um cavalo e uma pistola. Pois toda a sua paixão era ir a Minas, escolheu o cavalo.

Surgiu, porém, uma objeção.

— Mas, senhor, disse ele, os meus recursos…

— Os seus recursos! Ah! tudo previ… descanse… eu sou um marido previdente.

E tirando da algibeira da casaca uma linda carteira de couro da Rússia, diz-lhe:

— Aqui tem dois contos de réis para os gastos da viagem; vamos, parta! parta imediatamente. Para onde vai?

— Para Minas.

— Oh! a pátria do
fg(517,’Tiradentes’)
Tiradentes! Deus o leve a salvamento… Perdôo-lhe, mas não volte a esta corte… Boa viagem!

Dizendo isto, o sr. F… desceu precipitadamente a escada, e entrou no cabriolé, que desapareceu em uma nuvem de poeira.

O sr. X… ficou por alguns instantes pensativo. Não podia acreditar nos seus olhos e ouvidos; pensava sonhar. Um engano trazia-lhe dois contos de réis, e a realização de um dos seus mais caros sonhos. Jantou tranqüilamente, e daí a uma hora partia para a terra de
fg(167,’Gonzaga’)
Gonzaga, deixando em sua casa apenas um moleque encarregado de instruir, pelo espaço de oito dias, aos seus amigos sobre o seu destino.

No dia seguinte, pelas onze horas da manhã, voltava o sr. F… para a sua chácara de Andaraí, pois tinha passado a noite fora.

Entrou, penetrou na sala, e indo deixar o chapéu sobre uma mesa, viu ali o seguinte bilhete:

“Meu caro esposo! Parto no paquete em companhia do teu amigo P… Vou para a Europa. Desculpa a má companhia, pois melhor não podia ser. — Tua E…”

Desesperado, fora de si, o sr. F… lança-se a um jornal que perto estava: o paquete tinha partido às oito horas.

— Era P… que eu acreditava meu amigo… Ah! maldição! Ao menos não percamos os dois contos! Tornou a meter-se no cabriolé e dirigiu-se à casa do sr. X…, subiu; apareceu o moleque.

— Teu senhor?

— Partiu para Minas.

O sr. F… desmaiou.

Quando deu acordo de si estava louco… louco varrido!

Hoje, quando alguém o visita, diz ele com um tom lastimoso:

— Perdi três tesouros a um tempo: uma mulher sem igual, um amigo a toda prova, e uma linda carteira cheia de encantadoras notas… que bem podiam aquecer-me as algibeiras!…

Neste último ponto, o doido tem razão, e parece ser um doido com juízo.

Machado de Assis
Conto originalmente publicado em A Marmota (1858)
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OBS: Machado de Assis escreveu esse texto quando ainda tinha apenas 19 anos de idade.
 
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