2c6833b0-77e9-4a38-a9e6-8875b1bef33d diHITT - Notícias Sou Maluca Sim!: Rubem Alves
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sábado, 10 de dezembro de 2016 0 comentários

PERGUNTA-ME SE ACREDITO EM DEUS...



Aconteceu ao final de um debate sobre educação promovido pela Folha. Chegada a hora das perguntas uma senhora me perguntou algo que nada tinha a ver com educação. Perguntou porque lhe doía: "O senhor acredita em Deus?" Houve tempo em que era mais fácil acreditar em Deus. Hoje até o Papa se atrapalha. Na sua visita ao campo de concentração de Treblinka perguntou o que não deveria ter perguntado: "Onde estava Deus quando esse horror aconteceu?"

Heresia porque a pergunta silenciosamente afirma que Deus não estava lá. Se estivesse não teria deixado aquele horror acontecer. Pois Deus não é amor e todo poderoso? Se estava lá e deixou acontecer ou ele não é amor ou não é todo poderoso. Por outro lado, se ele não estava lá ele não é onipresente...
Depois do atentado terrorista ao World Trade Center o "New York Times" publicou um artigo com essa mesma pergunta: Onde estava Deus? Se estava lá, por que deixou acontecer?

Dietrich Bonhoffer, pastor protestante que foi enforcado por haver participado de um frustrado atentado para assassinar Hitler -às vezes não há como fugir: ou matar um único, para que muitos não sejam mortos, ou, para preservar a pureza pessoal, não matar esse único e deixar que milhares sejam mortos; a inocência pode ser mais criminosa que o crime..., lutou com essa pergunta: "Onde está Deus?" Sua resposta foi simples: "Deus está aqui, mas ele é fraco..."

Se Deus existe e é forte, como perdoá-lo por permitir que aconteça o horror de sofrimento que não deveria acontecer? Mas se Deus é fraco ou não existe, então seria possível perdoá-lo e amá-lo. Aí choraríamos e diríamos: "Se Deus existisse e fosse forte isso não aconteceria..." A gente fica, então, com saudade do Deus que não existe. Mas eu não disse nada disso para aquela senhora. Apenas perguntei de volta, pedindo um esclarecimento: "Acreditar em qual Deus? Há tantos... Homens ferozes e vingativos têm um Deus feroz e vingativo que mantém, para sua própria alegria, uma câmara de torturas chamada Inferno para vingar-se dos seus desafetos. Há o Deus jardineiro que criou um Paraíso e mora nas árvores e nas correntes cristalinas. Há o Deus com alma de banqueiro que contabiliza débitos e créditos... Há o Deus da Cecília Meireles que se confunde com o mar... Há o Deus erótico que inspira poemas de amor carnal... Há o Deus que se vende por promessas e faz milagres... E há também o Deus criança de Alberto Caeiro e Mário Quintana. Qual deles?"

Ela ficou em silêncio, meio perdida. Então lhe respondi com os versos do Chico: "Saudade é o revés do parto. É arrumar o quarto para o filho que já morreu".

E perguntei: "Qual é a mãe que mais ama? A que arruma o quarto para o filho que chegará amanhã ou a que arruma o quarto para o filho que nunca chegará?".

E acrescentei: "Sou um construtor de altares. Construo meus altares à beira de um abismo. Eu os construo com poesia e beleza. Os fogos que acendo sobre eles iluminam o meu rosto e aquecem o meu corpo. Mas o abismo continua escuro e silencioso..."

Aí, provocado pela pergunta daquela mulher desconhecida escrevi um livrinho cujo título é a pergunta que ela me fez: "Perguntaram-me se acredito em Deus". Àquela mulher o meu muito obrigado...

Rubem Alves

quinta-feira, 10 de março de 2016 0 comentários

O CANTO DO GALO


O meu pensamento é um devorador de imagens. Quando me aparece uma boa imagem eu rio de felicidade e o meu pensador põe-se a brincar com ela como um menino brinca com uma bola. Se me disserem que este hábito intelectual não é próprio de um filósofo, que os filósofos devem manter-se dentro dos limites de uma dieta austera de conceitos puros e sem temperos, invoco em minha defesa Albert Camus, que dizia que só se pensa através de imagens.

Amo as imagens mas elas amedrontam-me. As imagens são entidades incontroláveis que frequentemente produzem associações que o autor não autorizou. Os conceitos, ao contrário, são bem comportados, pássaros engaiolados. As imagens são pássaros em voo… Daí o seu fascínio e o seu perigo. Mas eu não consigo resistir à tentação. Assim, aqui vai uma parábola que me apareceu, com todos os riscos que ela implica:

Era uma vez um lavrador que criava galinhas. Era um lavrador fora do comum, intelectual e progressista. Estudou administração para que a sua quinta funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutoramento em criação de galinhas. No curso de administração aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuízo; deve, portanto, ser eliminado. Aplicado à criação de galinhas esse princípio traduz-se assim: galinha que não põe ovo não vale a ração que come. Não pode ocupar espaço no galinheiro. Deve, portanto, ser transformada em cubinhos de caldo de galinha.

Com o propósito de garantir a qualidade total da sua quinta, o lavrador estabeleceu um rigoroso sistema de controlo da produtividade das suas galinhas. Produtividade de galinhas é um conceito matemático que se obtém dividindo-se o número de ovos postos pela unidade de tempo escolhida. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou superior a 250 ovos por ano podiam continuar a viver na quinta como galinhas poedeiras.

Estabeleceu, inclusive, um sistema de mérito galináceo: as galinhas que punham mais ovos recebiam mais ração. As galinhas que punham menos ovos recebiam menos ração. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou inferior a 249 ovos por ano não tinham mérito algum e eram transformadas em cubinhos de caldo de galinha.

Acontece que conviviam com as galinhas poedeiras, galináceos peculiares que se caracterizavam por um hábito curioso. A intervalos regulares e sem razão aparente, eles esticavam os pescoços, abriam os bicos e emitiam um ruído estridente e, acto contínuo, subiam para as costas das galinhas, seguravam-nas pelas cristas com o bico, e obrigavam-nas a agacharem-se. Consultados os relatórios de produtividade, verificou o lavrador que isso era tudo o que os galos – esse era o nome daquelas aves – faziam. Ovos, mesmo, nunca, jamais, em toda a história da quinta, nenhum deles tinha posto.

Lembrou-se o lavrador, então, das lições que aprendera na escola, e ordenou que todos os galos fossem transformados em cubos de caldo de galinha. As galinhas continuaram a pôr ovos como sempre haviam posto: os números escritos nos relatórios não deixavam margens para dúvidas. Mas uma coisa estranha começou a acontecer. Antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias, quebravam-se e de dentro deles saíam pintainhos vivos. Agora, os ovos das mesmas galinhas, depois de vinte e um dias, não quebravam. Ficavam lá, inertes. Deles não saíam pintainhos. E se ali continuassem por muito tempo, estouravam e de dentro deles o que saía era um cheiro de coisa podre. Coisa morta.

Então o lavrador científico aprendeu duas coisas:

1º: o que importa não é a quantidade dos ovos; o que importa é o que vai dentro deles. A forma dos ovos é enganosa. Muitos ovos lisinhos por fora são podres por dentro.

2º: há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidas por meio de números. Coisas sem as quais os ovos são coisas mortas.



Esta parábola é sobre a universidade. As galinhas poedeiras são os docentes. Corrijo-me: docente, não. Porque docente quer dizer aquele que ensina. Mas o ensino é, precisamente, uma actividade que não pode ser traduzida em ovos; não pode ser expressa em termos numéricos. A designação correcta é pesquisadores, isto é, aqueles que produzem artigos e os publicam em revistas internacionais indexadas.

Artigos, como os ovos, podem ser contados e computados nas colunas certas dos relatórios. As revistas internacionais indexadas são os ninhos acreditados. Não basta pôr ovos. É preciso pô-los nos ninhos acreditados. São os ninhos internacionais, em língua estrangeira, que dão aos ovos a sua dignidade e valor. A comunidade dos produtores de artigos científicos não fala português. Fala inglês.

Como resultado da pressão publish or perish, ponha ovos ou a sua cabeça será cortada, a docência acaba por perder o sentido. Quem, numa universidade, só ensina, não vale nada. Os alunos passam a ser trambolhos para os pesquisadores: estes, ao invés de se dedicarem à tarefa institucionalmente significativa de pôr ovos, são obrigados, pela presença de alunos, a gastar o seu tempo numa tarefa irrelevante: o ensino não pode ser quantificado (quem disser que o ensino se mede pelo número de horas/aula é um idiota).

O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem orientar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender à exigência da comunidade científica internacional de publish or perish. Eu acho que o objectivo das escolas e universidades é contribuir para o bem-estar do povo. Por isso, a sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar, porque é com o pensamento que se faz um povo. Mas isso não pode ser quantificado como se quantificam os ovos postos.

Sugiro que as nossas universidades, ao avaliar a produtividade dos que nelas trabalham, dêem mais atenção ao canto do galo…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

Rubem Alves
segunda-feira, 29 de junho de 2015 1 comentários

FILOSOFIA (95 obras inéditas) 6º atualização.


Segue abaixo lista inédita com mais ou menos 95 obras de filosofia.  Boa leitura!

Google Drive (direto):
https://drive.google.com/folderview…

Torrents.
Via Pirate Bay: 
http://thepiratebay.se/torrent/10759549

Via Google Drive:
https://drive.google.com/folderview…


AGOSTINHO, Santo. Confissões; De magistro [coleção os pensadores]
ALVES, Rubem. Filosofia da ciência
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço
BERLIN, Isaiah. Quatro ensaios sobre a liberdade
BONOMI, Andrea. Fenomenologia e estruturalismo
BUTLER, Judith. El genero en disputa [español]
BUTLER, Judith. Lenguaje, poder e identidad [español]
BUTLER, Judith. Marcos de Guerra [español]
BUTLER, Judith. Mecanismos psíquicos del poder [español]
BUTLER, Judith. Problemas de Genero 1-2
BUTLER, Judith. Sujetos del deseo - reflexiones hegelianas en la Francia del siglo XX
BUTLER; ATHANASIOU. Dispossession - the performative in the political
BUTLER; HABERMAS; TAYLOR. The Power of Religion in the Public Sphere
BUTLER; LACLAU; ZIZEK. Contingencia, hegemonia, universalidad
BUTLER; SCOTT. Feminists theorize the political
CIORAN, Emil. Silogismos da Amargura
DAVIDSON, Donald. Ensayos sobre acciones y sucesos
DELEUZE, Gilles. Francis Bacon - lógica da sensação
DELEUZE; GUATTARI. Mil platôs - capitalismo e esquizofrenia, vol. I
ENGELS, F. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado
FEUERBACH, L. Princípios da filosofia do futuro
FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta - Ensaios para uma futura filosofia da fotografia
GAGNEBIN, Jeanne Marie. Historia e narração em Walter Benjamin
GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar Escrever Esquecer
HAACK, Susan. Filosofia das lógicas
HAMLYN, D. Uma história da filosofia ocidental
HARDT; NEGRI. Império
HEGEL, G. Enciclopedia de las ciencias filosóficas [español]
HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Tomo I
HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Tomo II
HUME, D. Resumo de um tratado da natureza humana
HYPPOLITE, Jean. Ensaios de Psicanálise e Filosofia
KANT, I. A paz perpétua
KENNY, Anthony. História Concisa da Filosofia Ocidental
KIERKEGAARD, Sören. El concepto de la angustia
KOJÈVE, A. Introducao a leitura de Hegel
KONDER, Leandro. Hegel - a razão quase enlouquecida
LATOUR, Bruno. A vida de laboratório
LUKÁCS, G. Introdução a uma estética marxista
LUKÁCS, G. The sociology of modern drama
MACHADO, Roberto. Deleuze, a arte e a filosofia
MARCONDES, Danilo. Introdução à história da filosofia
MARCUSE, Herbert. Algumas implicações sociais da tecnologia moderna
MARX, Karl. A ideologia alemã (boitempo)
MARX, Karl. Diferencia general entre filosofia democritea y epicurea de la naturaleza [Tese de Doutorado 1841]
MARX, Karl. O capital 
MARX, Karl. Sobre a questão judaica
MÉSZÁROS, István. A Atualidade Histórica da Ofensiva Socialista
MÉSZÁROS, István. A Educação Para Além do Capital
MÉSZÁROS, István. A Necessária Reconstituição da Dialética Histórica
MÉSZÁROS, István. A Obra de Sartre
MÉSZÁROS, István. Aspects of History and Class Consciousness
MÉSZÁROS, István. Bolívar and Chávez - The Spirit of Radical Determination
MÉSZÁROS, István. Crise Estrutural Necessita de Mudança Estrutural
MÉSZÁROS, István. El Desafio y La Carga Del Tiempo Histórico
MÉSZÁROS, István. Entrevista - Marxismo, sistema do Capital e Socialismo Hoje
MÉSZÁROS, István. Filosofia, Ideologia e Ciência Social
MÉSZÁROS, István. Lukács Concept of Dialectic
MÉSZÁROS, István. O Desafio e o Fardo do Tempo Histórico – Conferência
MÉSZÁROS, István. O Século XXI - Socialismo ou barbárie
MÉSZÁROS, István. Para Além do Capital
MÉSZÁROS, István. Reflections on the New Internacional
MÉSZÁROS, István. Socialismo o Barbarie
MÉSZÁROS, István. Structural Crisis Needs Structural Change
MÉSZÁROS, István. The Challenge and Burden of Historical Time
MÉSZÁROS, István. The Communal System and the Principle of Self Critique
MÉSZÁROS, István. The Dialectic of Structure and History - An Introduction
MÉSZÁROS, István. The Work of Sartre
MILL, John Stuart. Princípios de Economia Política - Vol I
MUSSE; LOUREIRO. Capítulos do marxismo ocidental
NIETZSCHE, F. A filosofia na época trágica dos gregos
NIETZSCHE, F. A filosofia na idade trágica dos gregos
NIETZSCHE, F. A visão dionisíaca do mundo
NIETZSCHE, F. Escritos de Retórica
NIETZSCHE, F. Introdução à tragédia de Sófocles
NIETZSCHE, F. Sobre verdade e mentira
NIGRO, Rachel. A virada linguistico pragmatica e o pós-positivismo
PALMER, R. Hermeneutica
PELBART, Peter. O avesso do niilismo cartografias do esgotamento
RANCIÈRE, J. A ficção documental
RANCIÈRE, J. Aisthesis. Scenes from the Aesthetic Regime of Art
RANCIÈRE, J. Momentos politicos
RUSSELL, Bertrand. El ABC de la relatividad
RUSSELL, Bertrand. Funções de um professor
RUSSELL, Bertrand. Mysticism and logic and other essays
RUSSELL, Bertrand. Our knowledge of the external world
RUSSELL, Bertrand. The conquest of happiness
SAFATLE, V. Curso sobre Hegel
SIMONDON, G. A gênese do indivíduo
SLOTERDIJK, Peter. Critica de la razon cinica
SLOTERDIJK, Peter. Mobilização copernicana e desarmamento ptolomaico
SLOTERDIJK, Peter. O desprezo das massas
SLOTERDIJK, Peter. Regras para o parque humano (uma resposta à carta de Heidegger)
SLOTERDIJK, Peter. Temperamentos filosóficos - de Platón a Foucault
SLOTERDIJK, Peter. Textos
UHLMANN, Günter Wilhelm. Teoria geral dos sistemas

#ppafrorio
#ppafro
#umquilomboprogressista
#JaquelineRamiro
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014 2 comentários

QUEM AMA O FEIO, BONITO LHE PARECE



Se você é jovem, um desses que ainda frequenta escola ou faculdade, deixo por conselho que namore os feios, pois o bonitinho de hoje pode ser o feio de amanhã, daí já imaginou a sua decepção? Mais o contrário também pode acontecer, do feio se transformar em príncipe, nesse caso namorar o feio é um investimento para o futuro.

Por esses dias estava num desses poucos momentos em que assisto TV e es que no comercial tive uma aparição: era um ex namoradinho passando no comercial. Pelo o amor de Jimi Hendrix, a surpresa não foi por ele está na TV, mas em razão da sua aparência. Quando namorávamos ele era alto, elegante. As moças curvavam o pescoço para vê-lo passar, as amigas me invejavam por estar com ele, mas agora o carinha é a visão do Jason sabe, aquele dos filmes de terror com uma máscara de hóquei. E o pior: é um Jason obeso. 
Será que os buracos na cara do meu ex são marcas de inúmeras espinhas ou ele teve uma catapora violenta? Não sei.  


Rubens Alves no documentário professor de espantos diz que quando gostamos muito de um lugar, passado muitos anos, melhor não visita-lo, pois dificilmente ele será agradável como você se recorda. Acho que isso vale para pessoas também. 
sábado, 25 de outubro de 2014 0 comentários

O PROFESSOR DE ESPANTOS- RUBEM ALVES




Até que ponto estamos dispostos a abandonar tudo o que conquistamos para viver novas experiências? E até onde conseguimos ir quando o caminho exige priorizar coisas tão esquecidas no mundo atual como a beleza, a poesia, a arte e a capacidade de aprender com olhos de criança?

 Para o escritor, educador, teólogo e psicanalista Rubem Alves, transpor esses limites é um desafio que se impôs desde a infância e que ele sempre aceitou, sem medos. No documentário “Rubem Alves – O professor de espantos”, conhecemos um pouco da vida deste educador: seus sonhos, ideias e realizações e também as interrogações diante do envelhecer. Considerado um dos maiores pensadores contemporâneos da educação no Brasil, o “jardineiro” Rubem Alves semeia ideias tão “revolucionárias” que acabam, por um lado, provocando a crítica e o desprezo de muitos setores da intelectualidade brasileira e, por outro, conquistando a cumplicidade de todos os que são apaixonados pela Educação. “Rubem Alves, o professor de espantos” tem direção de Dulce Queiroz



Nesse documentário tornasse impossível não perceber a melancolia de Rubens Alves, melancolia comum aos pensadores que gosto. Em dado momento ele fala no seu desencantamento com a fé, com as amizades, é um homem inteligente, dificilmente não chegaria a isso. 

FICHA TÉCNICA

Direção e Roteiro: Dulce Queiroz

Produção: João Gollo

Produção Executiva: Dulcídio Siqueira Neto

Imagens: Cícero Bezerra e Claudio Adriano

Edição e finalização: Guem Takenouchi

Animação: Tiago Keise

Coordenação de Produção: Santiago Dellape

Auxiliar de cinegrafista: Misael do Rosário

Pesquisa: André Bergamo e Dulce Queiroz

Trilha Original: Alberto Valerio

Realização: TV Câmara 2013


terça-feira, 14 de outubro de 2014 0 comentários

UMA VIDA MELHOR QUE ENCOMODA



"Na vida tudo que dá errado pode dar muito certo."


Que dias! Quantas baixas na nossa literatura. Lamentei a morte de João Ubaldo, pois sempre dói a partida de quem ainda tinha muito a contribuir (a morte de um grande escritor é sua obra inacabada), e estou compadecida com a fragilidade da situação do espetacular Ariano Suassuna (em coma até o momento em que escrevo), porém usarei esta coluna para falar de uma ausência que me tocou mais profundamente: a do mineiro Rubem Alves, por quem eu tinha enorme afeição não só pelo que escrevia, mas pelo seu jeito terno, sua desafetação, sua raridade como ser humano. Quanto mais se grita e esperneia por aí, mais atenção eu dou aos singulares que brilham em voz baixa.

Domingo passado, comentei sobre o documentário Eu Maior, em que Rubem Alves também participou com seu testemunho. Entre outras coisas, ele contou que certa vez um garoto se aproximou dele para perguntar como havia planejado sua vida para chegar onde chegou, qual foi a fórmula do sucesso. Rubem Alves respondeu que chegou onde chegou porque tudo que havia planejado deu errado.

Planejar serve para colocar a pessoa em movimento. Se não houver um objetivo, um desejo qualquer, ela acabará esperando sentada que alguma grande oportunidade caia do céu, possivelmente por merecimento cósmico.

É preciso querer alguma coisa – já alcançar é facultativo, explico por quê.

Uma vez determinado o rumo a seguir, entra a melhor parte: abrir-se para os acidentes de percurso. Você que sonha em ser um Rubem Alves, é possível que já tenha começado a escrever num blog (parabéns, pôs-se em ação). No entanto, esses escritos podem conduzi-lo a um caminho que não estava nos planos. Dependendo do conteúdo, seus posts podem levá-lo a um convite para lecionar no Interior, a ser sócio de um bar, a estagiar com um tio engenheiro, a fazer doce pra fora, a pegar a estrada com um amigo e acabar na Costa Rica, onde conhecerá a mulher da sua vida e com ela abrirá uma pousada, transformando-se num empresário do ramo da hotelaria.

Não é assim que as coisas acontecem, emendando uma circunstância na outra?

A vida está repleta de exemplos de arquiteta que virou estilista, enfermeiro que virou pastor evangélico, estudante de Letras que virou maquiadora, publicitário que virou chef de cozinha, professor que virou dono de pet shop, economista que virou fotógrafo. Tem até gente que almejava ser economista, virou economista, fez uma bela carreira como economista e morreu economista. A vida é surpreendente.

Ariano Suassuna largou a advocacia aos 27 anos, João Ubaldo também se formou em Direito, mas nem chegou a exercer o ofício, e Rubem Alves teve até restaurante. Tudo que dá errado pode dar muito certo. A vida joga os dados, dá as cartas, gira a roleta: a nós, cabe apenas continuar apostando.

MARTHA MEDEIROS
 
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