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sexta-feira, 10 de outubro de 2014 0 comentários

AMOR NÃO SE IMPROVISA


"Só damos aos outros aquilo que andamos recebendo a vida inteira"


Uma das minhas vizinhas de prédio gosta de me lembrar quanto pareço feliz desde que me casei. A gente se encontra no elevador, e ela, invariavelmente, observa que continuo com o sorriso dos homens apaixonados. Eu rio, embaraçado e contente, e conversamos um pouquinho. Além de gentil e afetuosa, minha vizinha é romântica. Ela perdeu o marido há pouco tempo, depois de um casamento de 30 anos, e projeta nas pessoas ao redor um pouco da felicidade que viveu. Ao agir assim, de maneira tão doce, ela me lembra que as pessoas dão ao mundo aquilo que receberam. Pode ser amor e gentileza, pode ser o contrário.

Isso é muito claro quando a gente entra na intimidade de um relacionamento. Em pouco tempo, começamos a perceber do que a outra pessoa é feita. Ou, melhor dizendo, de que tipo de experiência amorosa ela é constituída. Pode ser de um amor tranquilo e seguro, que resulta num tipo de gente. Pode ser de um amor escasso e algo desesperado, que dá outro tipo de ser humano. Pode ser - na pior das hipóteses - da falta de amor (ou da percepção da falta de amor, que dá na mesma). Dela resulta uma gente arisca, dura, refratária aos próprios sentimentos e aos dos outros.

A experiência universal sugere que a gente não escolhe por que tipo de pessoa se apaixonará. Quando se dá conta, já aconteceu - e estamos envolvidos, até o pescoço, com alguém que pode ser muito difícil de amar, por ter as piores experiências no assunto. Nenhum de nós tem currículo perfeito nesse tema. Posta no divã de um analista, a maioria revelaria buracos enormes na sua biografia afetiva. Alguns, porém, têm traumas mais visíveis, rombos escancarados que se traduzem, sobretudo, na falta de naturalidade quando se trata de afeto. Gostar para eles é difícil, doloroso, complicado. Receber o sentimento do outro também. O cotidiano da relação, que exige a troca de sentimentos simples, fica truncado. É como se as pessoas falassem, afetivamente, línguas diferentes. Elas não se compreendem, porque a uma delas (ou às duas) falta o vocabulário essencial do amor.

Talvez, a muitos, isso pareça abstrato. Para mim, é muito concreto.

Tendo vivido e convivido com pessoas muito diferentes, me é claro como a experiência amorosa (familiar e romântica) produz diferentes atitudes diante do amor - e como essas atitudes são modificadas pelas experiências da vida adulta. Quando começamos a nos relacionar eroticamente, somos adolescentes. Levamos para os braços do outro, quase intactas, nossas questões infantis e familiares. À medida que a gente cresce e vai tendo outras experiências, os sentimentos evoluem. Ninguém está pronto e acabado aos 20 ou aos 40 anos. Nem aos 70, acho.

A impressão de não ser a criança mais amada do mundo pode diminuir ou aumentar nos primeiros envolvimentos. A sensação adolescente de ser o centro das atenções (ou de ser rejeitado pelo mundo) pode ser negada ou confirmada por um grande amor. O medo e a insegurança podem ser ampliados numa sequência de relações instáveis, ou reduzidos por um relacionamento intenso, seguro e duradouro. A vida não para de nos formar. Quem a gente escolhe para estar a nosso lado tem papel fundamental nessa formação.

Por isso tudo, a atitude da minha vizinha me parece tão bonita. Ela sabe, por ter vivido, que as pessoas se transformam pela experiência do amor. Divulga esse evangelho de uma forma discreta e efetiva. Na última vez em que me disse que eu parecia feliz, eu acabara de ter uma briga estúpida e desnecessária com minha mulher. A conversa no elevador, na saída para trabalho, me ajudou a lembrar quanto gosto e quanto essa relação é importante para mim. Horas depois, peguei o telefone e liguei para pedir desculpas.

Talvez fizesse isso de qualquer maneira, mas gosto de pensar que minha vizinha me ajudou a lembrar que fazer as pazes era urgente e necessário.

IVAN MARTINS
sexta-feira, 2 de março de 2012 0 comentários

Eu tenho um capeta dentro de mim!


Todos os dias a partir das 9:00h da manha vizinha liga o seu som no volume mais alto para louvar ao Senhor. Nesse momento ela incorpora o espirito baladeiro, dai ela louva freneticamente. Tão freneticamente e alto que literalmente as paredes e o chão da minha casa treme.

A necessidade do som no último volume de ser para que o Senhor possa ouvir e curtir o louvor láááá do céu.
São tocadas músicas muito bonitas em voz quase líricas, mas depois de ouvir mais de 10 vezes a mesma música e no mesmo dia só consigo pensar em uma cabra sendo comida por um bode ou algo assim.

Os falsetes me hipnotizam. E fico ali mesmo sem querer prestando atenção e numa dessas quase entrando em transe cheguei a um dado estatístico: para cada um 1 palavra como Deus, Jesus... temos 8 palavras demónio, capeta ou afins.
Porém isso não é culpa minha, como boa cristã eu deveria está achando tudo o máximo, mas tem um capeta dentro de mim que está achando essa música alta o tempo todo um saco. . Ele fica insistentemente dizendo que eu poderia está ouvindo uma outra música que mais me agrade como as canções de Chico Buarque, poderia está assistindo a um bom filme, lendo um livro, estudando, ou simplesmente desfrutando do bom e velho silêncio.

O louvor ao Senhor está me impedindo de realizar coisas simples a qualquer mortal.
Senhor tende piedade desse capeta dentro de mim ele é gente boa. Eu admito não posso contigo. Não estou mais suportando o louvor de 9:00h da manhã as 22:00h.

Por favor Senhor
pega leve comigo e substitui o louvor por um vizinho funkeiro é menos doloroso!
 
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