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segunda-feira, 3 de setembro de 2018 0 comentários

BOA VISTA



Enquanto todos queriam ir ao zoológico eu corria para o museu. Ensinei meus filhos a venerarem aquele espaço de história, cultura e ciências. Pelas barbas do imperador, estou muito triste.
O índio pelado não irá mais me receber, não poderei assombrar meus futuros netos na sala das múmias. Ninguém mais ouvirá aquela reprodução do canto de pássaros, que já não existem. Artrópodes...artrópodes, incríveis artrópodes.
Parece que de tanto, só nos restou aquele incrível meteorito que poucos sabem ser ele magnético.
Vou tentar não chorar, não fazer vergonha.

Ai, ai Maria Leopoldina. Ai, Ai D.Pedro II .Vocês foram imprescindíveis para o desenvolvimento científico da Terra Brasilis.
Peço, e envergonhada, desculpas á vossas memórias. É que no Brasil, sobre tudo a antiga corte, o ritual do beija mão continua, mas fatalmente nós tornamos uma república de espoliadores do povo.
O fogo enfim consumiu a casa do imperador!

Por: Jaqueline Ramiro
terça-feira, 4 de abril de 2017 0 comentários

O CINISMO DOS VALORES



 Cada vez mais desesperado. Olho, olho, e só vejo negrura à minha volta.

Fé? Evidentemente... Enquanto há vida, há esperança — lá diz o outro.

Mas, francamente: fé em quê? Num mundo que almoça valores, janta valores, ceia valores, e os degrada cinicamente, sem qualquer estremecimento da consciência?

Peçam-me tudo, menos que tape os olhos.

Bem basta quando a terra nos cobrir! — Ah! mas a humanidade acaba por encontrar o seu verdadeiro caminho — dizem-me duas células ingênuas do entendimento. E eu respondo-lhes assim: Não, o homem não tem caminhos ideais e caminhos de ocasião.

O homem tem os caminhos que andam. Ora este senhor, aqui há tempos, passou três séculos a correr atrás dum mito que se resumia em queimar, expulsar e perseguir outros homens, cujo pecado era este: saber filosofia, medicina, física, astronomia, religião, comércio — coisas que já nessa época eram dignas e respeitáveis. 

Miguel Torga

terça-feira, 28 de março de 2017 0 comentários

O NOSSO INFINITO



Há ou não um infinito fora de nós? É ou não único, imanente, permanente, esse infinito; necessariamente substancial pois que é infinito, e que, se lhe faltasse a matéria, limitar-se-ia àquilo; necessariamente inteligente, pois que é infinito, e que, se lhe faltasse a inteligência, acabaria ali? Desperta ou não em nós esse infinito a ideia de essência, ao passo que nós não podemos atribuir a nós mesmos senão a ideia de existência? Por outras palavras, não é ele o Absoluto, cujo relativo somos nós?

Ao mesmo tempo que fora de nós há um infinito não há outro dentro de nós? Esses dois infinitos (que horroroso plural!) não se sobrepõem um ao outro? Não é o segundo, por assim dizer, subjacente ao primeiro? Não é o seu espelho, o seu reflexo, o seu eco, um abismo concêntrico a outro abismo? Este segundo infinito não é também inteligente? Não pensa? Não ama? Não tem vontade? Se os dois infinitos são inteligentes, cada um deles tem um princípio volante, há um eu no infinito de cima, do mesmo modo que o há no infinito de baixo. O eu de baixo é a alma; o eu de cima é Deus.



Pôr o infinito de baixo em contacto com o infinito de cima, por meio do pensamento, é o que se chama orar.

Não tiremos nada ao espírito humano; é mau suprimir. O que devemos é reformar e transformar. Certas faculdades do homem dirigem-se para o Incógnito, o pensamento, a meditação, a oração. O Incógnito é um oceano. Que é a consciência? É a bússola do Incógnito. O pensamento, a meditação, a oração são tudo grandes irradiações misteriosas. Respeitemo-las. Para onde vão essas majestosas irradiações da alma? Para a sombra, quer dizer, para a luz.

A grandeza da democracia consiste em não negar, nem renegar nada da humanidade. Ao pé do direito do homem, pelo menos ao lado, há o direito da alma.

A lei é esmagar os fanatismos e venerar o infinito. Não nos limitemos a prostrar-nos debaixo da árvore da Criação e a contemplar os seus imensos ramos cheios de astros. Temos um dever: trabalhar para a alma humana, defender o mistério contra o milagre, adorar o incompreensível e rejeitar o absurdo, não admitindo em coisas inexplicáveis senão o necessário, tornando sã a crença, tirando as superstições de cima da religião, catando as lagartas de Deus

Victor Hugo

in 'Os Miseráveis'


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016 0 comentários

"CAVERNA DAS MÃOS" NA ARGENTINA



É como se essas mãos mortas há muito
tempo estivessem saindo da rocha e tentando nos alcançar. É uma das relíquias
mais tocantes do mundo dos antigos caçadores-coletores – mas ninguém sabe o que significa.

Pintura feita cerca de 9.000 anos atrás.
 
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