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sábado, 24 de março de 2018 0 comentários

A VIDA PASSADA A LIMPO




Começo a ver no escuro
um novo tom
de escuro.
Começo a ver o visto
e me incluo
no muro.
Começo a distinguir
um sonilho, se tanto,
de ruga.
E a esmerilhar a graça
da vida, em sua

- Poema "Ciência", de Carlos Drummond de Andrade, in "A Vida Passada A Limpo".
domingo, 18 de março de 2018 0 comentários

DENTRO DE TODA ALMA...



Ah! Dentro de toda a alma existe a prova 
De que a dor como um dartro se renova, 
Quando o prazer barbaramente a ataca...

Augusto dos Anjos
quinta-feira, 27 de julho de 2017 0 comentários

A REALIDADE TRANSFIGURADA



Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. O que te direi? te direi os instantes. Exorbito-me e só então é que existo e de um modo febril. Que febre: conseguirei um dia parar de viver? ai de mim, que tanto morro. Sigo o tortuoso caminho das raízes rebentando a terra, tenho por dom a paixão, na queimada de tronco seco contorço-me às labaredas. A duração de minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios. 
Para me interpretar e formular-me preciso de novos sinais e articulações novas em formas que se localizem aquém e além de minha história humana. Transfiguro a realidade e então outra realidade, sonhadora e sonâmbula, me cria. E eu inteira rolo e à medida que rolo no chão vou me acrescentando em folhas, eu, obra anônima de uma realidade anônima só justificável enquanto dura a minha vida. E depois? depois tudo o que vivi será de um pobre supérfluo. 
Mas por enquanto estou no meio do que grita e pulula. E é sutil como a realidade mais intangível. Por enquanto o tempo é quanto dura um pensamento. 

Clarice Lispector, in 'Água Viva' 
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016 0 comentários

A COTA DE AMOR



Cada um ao nascer traz sua dose de amor, 
mas os empregos, o dinheiro, 
tudo isso, nos resseca o solo do coração.

Sobre o coração levamos o corpo, sobre o corpo a camisa, mas isto é pouco.
Alguém imbecilmente inventou os punhos e sobre os peitos 
fez correr o amido de engomar.

Quando velhos se arrependem.

A mulher se pinta. O homem faz ginástica pelo sistema Muller.
Mas é tarde. A pele enche-se de rugas.

O amor floresce, floresce,
e depois desfolha.

VLADIMIR MAIAKÓVSKI

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014 2 comentários

TALVEZ




Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás… Seremos…

PABLO NERUDA
sábado, 25 de outubro de 2014 0 comentários

NÃO QUERO A FACA NEM O QUEIJO QUERO A FOME




A mim que desde a infância venho vindo,
como se o meu destino,
fosse o exato destino de uma estrela,
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem,
amaria chamar-se Fliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho,
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.

ADÉLIA PRADO 
segunda-feira, 13 de outubro de 2014 0 comentários

O AMOR E O TEMPO




Transformar o minuto em momento
Um invento, um sentido, por dentro,
Ser cada segundo, sem tempo,
Sabendo que esse é o supremo talento

A vida são horas correndo e se existe ou não um destino,
Ele deve ser um menino que nem sabe onde está,
Porque de nada se sabe, se é do errado que se chega ao certo,
Se é pra frente, pra trás ou pros lados

E os minutos continuam correndo,
E a gente sempre mais lentos,
Sem saber direito o que achar

De tanto e de muito buscar, sempre chega o momento,
Da alegria alcançar a alma e dos sonhos voltarem a sonhar,
Em ser feliz para sempre, simplesmente por sempre amar.

 Edmir Silveira
sábado, 11 de outubro de 2014 0 comentários

ALMA SOLITÁRIA



Ó Alma doce e triste e palpitante!
que cítaras soluçam solitárias
pelas Regiões longínquas, visionárias
do teu Sonho secreto e fascinante!

Quantas zonas de luz purificante,
quantos silêncios, quantas sombras várias
de esferas imortais, imaginárias,
falam contigo, ó Alma cativante!

que chama acende os teus faróis noturnos
e veste os teus mistérios taciturnos
dos esplendores do arco de aliança?

Por que és assim, melancolicamente,
como um arcanjo infante, adolescente,
esquecido nos vales da Esperança?!

CRUZ E SOUSA

Na cidade do Desterro, hoje, Florianópolis, nasceu João da Cruz e Sousa. 
Filho de escravos e alvo da hostilidade dos conterrâneos, o catarinense conquistou,
 após a morte, reconhecimento como um dos maiores poetas do País.



sábado, 21 de junho de 2014 0 comentários

TEU SONHO NO MEU SONHO



Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobra suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma mais viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo,
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas.
Enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.

PABLO NERUDA
quinta-feira, 10 de abril de 2014 0 comentários

RECOLHIMENTO



Sê sábia, minha dor, e mantém-te mais quieta!
Reclamavas a Noite, ei-la que vem descendo:
Ar de sombra por tudo a atmosfera projeta,
A uns trazendo a paz, a angústia a outros trazendo.

Enquanto dos mortais a multidão objeta,
Sob o flagelo do Prazer, este algoz sem virtude,
Na festa mais servil de remorso e repleta,
Minha Dor, dá-me a mão! Teu corpo em mim se escude!

Vê curvados além perdidos os Anos passados,
Nas sacadas dos céus de vestidos antiquados,
Surgir do fundo do mar a Saudade sorridente;

Dormir o Sol morrente sob arcada branda
E assim com um sudário arrastado no Oriente,
Ouve, minha cara, a doce noite que anda.

CHARLES BAUDELAIRE
sexta-feira, 28 de março de 2014 0 comentários

UM OUTRO MUNDO




Depois da noite, amanheceu na gente,
Nossos corpos se reconheceram quentes,
Revelando os mundos que nem a gente entende.

E foi crescendo tanto, de novo e tão de repente,
Que derrubou o muro, que havia dentro da gente.
E se fez, de novo, um mundo todo à parte,
Construído pela arte, que nosso amor sabe fazer

Onde a alegria manda, onde o desejo ganha,
Onde o tocar das bocas é a fala mais urgente,
É nosso mundo, além do mundo.
Somos nós, muito além da gente.
Explodindo em gozo, só alma, sem mente,
Não somos nada, não somos nem a gente,
Somos a felicidade que nem o sonho sonha,
Porque ao sonho falta a tua carne,
faltam as tuas unhas, faltam os teus dentes.

Edmir Silveira
domingo, 23 de fevereiro de 2014 0 comentários

PAIS E FILHOS



"DEDICO ESSA CANÇÃO QUE MUITAS VEZES EMBALEI SEU SONO A MEU AMADO FILHO AUGUSTO SANTIAGO. 

Estátuas e cofres e paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender

Dorme agora
É só o vento lá fora

Quero colo! Vou fugir de casa
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo, tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três

Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito

É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há

Me diz, por que que o céu é azul?
Explica a grande fúria do mundo
São meus filhos
Que tomam conta de mim

Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar

Já morei em tanta casa
Que nem me lembro mais
Eu moro com os meus pais

É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar
Na verdade não há

Sou uma gota d'água
Sou um grão de areia
Você me diz que seus pais não te entendem
Mas você não entende seus pais

Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser
Quando você crescer

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014 0 comentários

FICA O DITO PELO NÃO DITO





o poema
antes de escrito
não é em mim
mais que um aflito
silêncio
ante a página em branco


ou melhor
um rumor
branco
ou um grito
que estanco
já que
o poeta
que grita
erra
e como se sabe
bom poeta(ou cabrito)
não berra

o poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer
e que
por não ter sido dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer

mas
dizer o quê?
dizer
olor de fruta
cheiro de jasmim?

mas
como dizê-lo
embora o diga de algum modo
pois não calo

por isso que
embora sem dizê-lo
falo:
falo do cheiro
da fruta
do cheiro
do cabelo
do andar
do galo
no quintal

e os digo
sem dizê-los
bem ou mal

se a fruta
não cheira
no poema
nem do galo
nele
o cantar se ouve
pode o leitor
ouvir
( e ouve)
outro galo cantar
noutro quintal
que houve.

(e que
se eu não dissesse
não ouviria
já que o poeta diz
o que o leitor
– se delirasse -
diria)

mas é que
antes de dizê-lo
não se sabe
uma vez que o que é dito
não existia
e o que diz
pode ser que não diria

e
se dito já não fosse
jamais se saberia

por isso
é correto dizer
que o poeta
não revela
o oculto:
inventa
cria
o que é dito
( o poema
que por um triz
não nasceria)

mas
porque o que ele disse
não existia
antes de dizê-lo
não o sabia

então ele disse
o que disse
sem saber o que dizia?
então ele sabia sem sabê-lo?
então só soube ao dizê-lo?
ou porque se já o soubesse
não o diria?

é que só o que não se sabe é poesia

assim
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber
o que
precisava dizer
ou poderia
pelo que o acaso dite
e a vida
provisoriamente
permite.

Ferreira Gullar, Em alguma parte alguma,p.p. 21,22,23,24,25, editora José Olympio
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014 0 comentários

SE TU ME AMAS



Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Mario Quintana
quinta-feira, 31 de outubro de 2013 0 comentários

ACONTECE


Bateram à minha porta em 6 de agosto,
 aí não havia ninguém
 e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
 e transcorreu comigo, ninguém.

Nunca me esquecerei daquela ausência
 que entrava como Pedro por sua causa
 e me satisfazia com o não ser,
 com um vazio aberto a tudo.

Ninguém me interrogou sem dizer nada
 e contestei sem ver e sem falar.

Que entrevista espaçosa e especial!

( Pablo Neruda )
quarta-feira, 11 de setembro de 2013 2 comentários

APRENDI QUE DOAR...


"... Aprendi, outro dia que perdoar
é a junção de " per " com "doar". 

Doar é mais do que dar.
Doar é a entrega total do outro.
O prefixo "per" que tem várias acepções,
indica movimento no sentido "de"
ou em "direção" a ou "através"
ou "para" etimologicamente falando,
portanto, perdoar, quer dizer doar ao
outro a possibilidade de que ele possa amar,
possa doar-se.
Não apenas quem perdoa que se
"doa através do outro".
Perdoar implica abrir possibilidades de
amor para quem foi perdoado,
através da doação oferecida
por quem foi agravado.
Perdoar é a única forma de facilitar
ao outro a própria salvação. 

Doar é mais do que dar: é a entrega total ...

Perdoar é doar o amor,
é permitir que a pessoa objeto do perdão
possa também devolver um amor que,
até então, só negara ...

Artur da Távola
sexta-feira, 9 de agosto de 2013 0 comentários

GEORG TRAKL - poesia







Aos Emudecidos
Oh, a loucura da cidade grande, quando ao entardecer
Árvores atrofiadas fitam inertes ao longo do muro negro
Que o espírito do mal observa com máscara prateada;A luz, com açoite magnético, expulsa a noite pétrea.
Oh, o repicar perdido dos sinos da tarde.

A puta, em gélidos calafrios, pare uma criança morta.
A cólera de Deus chicoteia enfurecida a fronte do possesso,
Epidemia purpúrea, fome que despedaça olhos verdes.
Oh, o terrífico riso do ouro.

Mas quieta em caverna escura sangra muda a humanidade,
Constrói de duros metais a cabeça redentora.

(Trakl -Trad. Cláudia Cavalcante)

"Nascido em 1887 e falecido em 1914, Traki é talvez o maior expoente da poesia expressionista alemã. Dado a excessos, consumia desde jovem grandes quantidades de cocaína e ópio, daí ter morrido jovem, 27 anos.A angústia e a subjetividade da vivência interior face à vivência exterior são marcas dua sua poesia."
quinta-feira, 1 de agosto de 2013 0 comentários

AMAR

















Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? Amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? sempre, e até de olhos vidrados, amar? Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante, e amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor. Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade
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AMOR A SEU TEMPO




Amor é privilégio de maduros estendidos na mais estreita cama, que se torna a mais larga e mais relvosa, roçando, em cada poro, o céu do corpo. É isto, amor: o ganho não previsto, o prêmio subterrâneo e coruscante, leitura de relâmpago cifrado, que, decifrado, nada mais existe valendo a pena e o preço do terrestre, salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo, vibrando no crepúsculo. Amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, 22 de julho de 2013 0 comentários

ELOGIO DA DISTÂNCIA



Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.


Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.

Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.

Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.

Paul Celan
 
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