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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014 1 comentários

A ORIGEM DA CONSCIÊNCIA HUMANA - entrevista

Entrevista com um dos maiores neurologistas da atualidade


No campus da Universidade de Iowa, Estados Unidos, o neurologista português António Damásio gasta boa parte do tempo tentando compreender uma das áreas mais nebulosas do conhecimento: a consciência humana. É difícil encontrar um desafio mais instigante para um cientista, diz Damásio. Afinal, o que poderia ser mais fascinante do que conhecer o modo como conhecemos?
Em seus dois livros, O Erro de Descartes e O Mistério da Consciência (editados no Brasil pela Companhia das Letras), Damásio descreve como a consciência abriu caminho para uma verdadeira revolução na natureza, tornando possível o surgimento da religião, da moral, da organização social e política, das artes, da ciência e da tecnologia. Ele tenta encontrar as respostas para as questões mais antigas da filosofia pesquisando o que há de mais novo no conhecimento do cérebro. Depois da polêmica em torno da clonagem humana, ele prevê que os debates mais fervorosos da ciência estarão ligados à possibilidade de manipularmos nossas emoções por meio de uma melhor compreensão da mente.

Qual a origem da consciência humana?
A consciência é fruto da necessidade básica de nos mantermos vivos. É claro que, na natureza, existe uma série de organismos simples que vivem de uma forma basicamente automática. Desde que mantenham cuidados básicos, como evitar perigos e adquirir a energia por meio dos alimentos, a vida desses organismos pode ser preservada. Os seres humanos são mais complexos: além de precisarem manter a vida de uma forma simples, eles têm que se adaptar a um ambiente cheio de dificuldades para obter energia e se expõem a inúmeros perigos e oportunidades. Nesse ambiente que não é apenas físico, mas também cultural, precisamos de um sistema complexo de imaginação, criatividade e planejamento. A consciência surge dessa necessidade.

Existe uma primeira forma de consciência?
Uma forma de consciência inicial aparece quando o homem sente que ele é um ser em si mesmo. É difícil encontrar uma palavra, em português, para definir o processo. Chamo essa consciência de self. É ela que faz que não sejamos um robô, uma máquina manipulável. Podemos guiar a imaginação e conduzir a criatividade por meio dessa consciência. Para compreendermos o que é a dor, o sofrimento, e também o prazer das outras pessoas, precisamos antes ter uma idéia de quem somos. E a consciência self é fundamental para que possamos respeitar os outros.

Como o estudo da consciência pode melhorar a vida das pessoas?
Grande parte do sofrimento humano é causado por conflitos das pessoas consigo mesmas. Quando conhecemos mais a natureza biológica do homem, encaramos esses problemas com outro olhar. Se conhecemos os mecanismos que acionam a ansiedade, a tristeza e a alegria, podemos entender melhor como cada pessoa é e evitar certos problemas. Pense nos conflitos religiosos, políticos e de grupos sociais. É claro que há bases econômicas para eles mas acredito que a compreensão das emoções pode ajudar a mudar a maneira pela qual as pessoas tentam resolver essas disputas. Entender a tendência para a violência, para a competição ou o funcionamento do medo é fundamental para o autocontrole. Posso soar otimista, mas acredito que, quando admitirmos que nossa razão é influenciada por essas emoções, o mundo poderá tornar-se melhor.

A compreensão detalhada da consciência não pode nos tornar mais céticos ao descobrirmos, por exemplo, que há, no cérebro, uma região responsável pelo amor ou outra pela fé?
Mesmo que venhamos a compreender a mente com mais profundidade, será muito difícil desvendar mistérios como a origem do universo ou o que faz com que nos apaixonemos por outra pessoa. É possível que nunca cheguemos a desvendar essas questões talvez nosso cérebro não tenha capacidade para compreender certos enigmas...

Como a crença em Deus...
Exatamente. Acho improvável que a neurociência consiga, um dia, apresentar razões para que as pessoas tenham ou deixem de ter fé numa inteligência superior. Elas podem até deixar de acreditar em milagres. Mas a ciência não tem como concluir que o Criador existe ou deixa de existir. A fé e a origem do universo não são problemas científicos passageiros. Mesmo assim, o conhecimento da mente pode mudar a forma como nos relacionamos com a vida. As pessoas tendem a aceitar a morte em função da complexidade do universo. Acho que deveria ser o contrário: constatando como a vida é frágil, podemos dar mais importância a ela e trabalhar para que seja a melhor possível enquanto dure.
A cada ano surgem um novo antidepressivo e drogas que provocam emoções artificiais.

Você acredita que, no futuro, teremos uma droga que possa acabar com as emoções ruins?
Acho que sim. É uma questão importante, que precisaremos discutir cada vez mais. Imagine uma superpopulação tomando Prozac diariamente. Esse grupo de pessoas alteraria um sistema natural e poderia causar diversos problemas é claro que alguns problemas seriam resolvidos, mas as conseqüências da proliferação dessa medicação poderiam levar à ruína de uma sociedade. Tem que haver mais investigação sobre como essas drogas serão usadas. É claro que as pessoas deprimidas devem ser tratadas, mas pode ser um erro tomar o medicamento apenas para inibir a timidez e impulsionar a vida social. A ciência precisa trazer mais informações para que esses temas não sejam discutidos pela simples opinião ou intuição de algumas pessoas.

Chegaremos, um dia, a manipular tão bem as áreas do cérebro que poderemos reproduzir com uma pílula a sensação de voar ou de passear numa montanha russa?
É bem provável que isso seja possível. E, sem dúvida, para a sociedade esse será um assunto tão polêmico quanto o da clonagem genética. Vamos ter que decidir o que deve e não deve ser permitido exatamente como na regulamentação da indústria do cinema e da televisão. Há um ponto em que tanto a criação artística quanto a científica precisam ser filtradas pela sociedade. Mas não podemos deixar que um burocrata decida isso. Quanto mais informações forem divulgadas no futuro, inclusive por meio desta revista, mais condições a sociedade terá para tomar suas decisões.

Que outro tipo de realidade virtual poderá ser criada, no futuro, manipulando o cérebro?
Prefiro não especular, tudo ainda não passa de teoria.

O estudo da consciência humana é um campo da ciência à espera de um novo Newton?
O problema da consciência é um tema complexo, que tem sido mal abordado. É evidente que é necessário avançar muito mais. Acho que meu livro O Mistério da Consciência traz alguns avanços importantes sobre o assunto, mas não devemos ter a ingenuidade de acreditar que tudo está resolvido. Há imensos problemas à espera de mais investigação e trabalho. Nos próximos dez ou 20 anos, talvez seja possível resolver boa parte deles.

Como escrever sobre assuntos tão complexos para o público leigo?
Os temas sobre os quais escrevo são importantes demais para ficarem restritos aos cientistas. Escrever sobre o pâncreas ou o fígado pode ser atraente apenas para os médicos, mas o público tem interesse quando falamos da mente, do pensamento, da emoção e do sentimento. É fantástico o retorno que tenho recebido dos leitores dos meus livros em todo o mundo. Interessados em arte, literatura e cinema dizem que essa pesquisa os ajuda a compreender melhor o que fazem nas suas próprias áreas.

ANTÓNIO DAMÁSIO

quarta-feira, 8 de agosto de 2012 3 comentários

Sexo Sem Compromisso


Sou um paradoxo: 24 anos, bonita, inteligente, faço faculdade, trabalho, malho,.
Estou num dilema. Sinto falta de sexo, estou solteira, e a masturbação não me satisfaz.
Conheço rapazes interessantes, que querem namorar, mas quando falam nisso me assusto e perco o interesse. Por outro lado, me sinto envolvida pelos que não me procuram. Busco o equilíbrio ás vezes quero um relacionamento e ás vezes não.

Ao ler sua coluna, refleti que talvez eu devesse assumir uma das “minhas vidas possíveis”, porém me sinto viva. Só queria sexo com mais freqüência mas quando tentei sexo casual não foi bom. Quando tentei me envolver em um relacionamento sério, me senti mal, até fisicamente. Meu ultimo namoro “funcionava” como casamento, mas o rapaz era mais novo e terminamos.
Pareço procurar um candidato ideal, mas com a certeza de querer estar sozinha.

(Mônica, Rio de janeiro)

Sexo sem compromisso

O professor de dança foi claro e conclusivo:
- Para dançar tango , a dama precisa se entregar, relaxar, ficar confiante nos braços do cavalheiro. A dança exige parceria e cumplicidade.
E acrescentou:
- Só é convincente e prazerosa quando os dançarinos associam bom comendo masculino e generosa complacência feminina.

No amor acontece a mesma coisa. A mulher precisa confiar abrir as comportas e se entregar, mas, quando há dúvidas ou desconfianças, fica paralisada, permanecendo de pé, fora da pista de dança. Mônica não consegue se entregar a uma relação amorosa. Quando alguém lhe propõe um compromisso sério, as asfixias e os encontros casuais a frustram. Define a si mesma como um “paradoxo”, sinônimo do que nós chamamos “sintoma”.

Analisemos sua principal contradição: Mônica afirma que quer sexo, amor, companhia, porém, a medida que não aceita compromissos sérios, nem relações casuais, nega o que acaba de afirmar, configurando um paradoxo sem solução possível, o que resulta em dúvidas, indecisões e possível paralisia.

A solução alternativa que encontrou foi escolher parceiros mais jovens, aos quais não respeita muito, porém, não a ameaçam, já que consegue controlá-los, mais facilmente do que homens maduros. Sabemos que todo sintoma está construído por um impulso inconsciente, uma defesa contra esse impulso e uma solução alternativa que depende da intensidade de ambos os fatores. Sobre essa plataforma, desenhamos nossa interpretação a ser considerada apenas como uma hipótese: Mônica é uma bonita jovem de 24 anos, solteira e independente, que confessa ter forte interesse por sexo. È uma demanda lógica e compreensível de uma mulher normal e não existe nada que a impeça de satisfazer seu desejo, já que mulheres com suas características são o sonho de consumo de qualquer homem. È justamente esse seu paradoxo: Mônica não quer o que mais quer... Por isso coloca freios no seus desejo e trava uma forte luta interna.

Seu desejo seria mergulhar nem perigoso e desenfreado abismo erótico. E, para se defender, decreta que não há um homem adequado para isso. Se não fosse indecisa, seria devassa, por isso suas duvidas funcionam como escudo protetor que a defende de seu maior perigo, que, por acaso coincide com seu maior desejo. Mônica na é diferente de outros seres humanos que se defendem de seus excessos: alcoólatras acabam abstêmios. Obesos em regime de fome, homossexuais latentes que são homofóbicos etc. No entanto, Mônica tem a seu favor o fato de seu conflito ser relativamente brando, já que, apesar de suas dificuldades, tem uma vida sexual razoável e sem exageros, e dúvidas que não chegam a se transformar em fobias.

Sua dificuldade de amar é sua maior defesa para não ser nem puta, nem casta.
Mônica tem excelente prognóstico. Um dia aprenderá a dançar, quando entender que os amores podem ser simultaneamente sérios e casuais, ou que ás vezes começam de uma forma e acabam de outra. O amor é o único território nos quais os erros são o caminho obrigatório para o acerto. Mônica é intensa e feminina. Será uma excelente dançarina de tango.

Por: Aberto Goldin, psicanalista.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011 0 comentários

SOMOS TODOS FOFOQUEIROS - 1992


A fofoca é uma instituição universal da qual ninguém escapa. Até hoje ainda não conheci uma única pessoa que não fosse fofoqueira. Em qualquer grupinho social a fofoca rola solta. Até nas Sociedades Psicanalíticas é um tal de conversa no pé do ouvido que não acaba mais. Nos partidos políticos reina o disse-me-disse. As especulações de todo tipo ocupam grande parte das atividades: fulano rompeu com fulano, beltrano bandeou-se, cuidado com seu falso apoio...

E a Imprensa? Não fosse a fofoca, de que viveriam as colunas políticas e sociais? Acontece que a Imprensa resolveu tornar elegante essa coisa e mudou o nome de fofoca para "boato". Assim, o fofoqueiro profissional se exime de culpa, pois o "boato" é a fofoca passada adiante. O fofoqueiro fica apenas sendo aquele que deu a partida (as famosas fontes oficiosas).
Contra a fofoca não se pode fazer nada. É que a vida de todo mundo é dura, difícil, cheia de frustrações, de sonhos desfeitos, de ilusões derrubadas por amargas realidades. E quando uma pessoa está sofrendo, é terrível constatar que tem outra se dando bem, pois isso agrava o sofrimento. Portanto, para quem está sofrendo, é melhor achar que todo mundo também está na pior. Mal de muitos, consolo é, já dizia minha vó.

Por que a gente gosta tanto de ler jornal? É que quando nos mostra toda essa violência que está por aí, frente à tamanha truculência, o leitor, que leva uma vida duríssima, respira até aliviado: "Puxa, podia ser pior. Pelo menos eu estou vivo e não matei ninguém".

Portanto, a tentação da fofoca é humana, normal e compreensível. O problema é que essa tentação pode tomar proporções assustadoras, impedindo que a pessoa tenha um olhar generoso, uma emoção forte, uma compreensão oceânica, um desprendimento amazônico.

O ser humano só se renova quando troca sua seiva com alguém. É de nossa própria natureza a necessidade do compartilhamento. Sem isso, caímos numa imensa solidão ou nossa alma começa a ficar numa carência medonha, faminta de energias alheias. Nada é mais importante que o diálogo cotidiano, o bate-papo de cada dia. O ser humano precisa disso como o ar para respirar.

E, às vezes, pensando que está falando a gente pede pra passar a sopa, picha, malha, faz fofoca e não fala nada. Ou seja, pra falar sobre as nossas profundas emoções, ânsias e sentimentos, a gente se vê de rédea curta.

Vocês já repararam? Quantas vezes duas pessoas se encontram e se dispõem a falar sobre a verdade de seus sentimentos e descambam para críticas, conselhos que não têm nada a ver, ou simples fofoca?
Eduardo Mascarenhas - Psicanalista
(Rio de Janeiro, 06/07 1942 / 29/04/1997)


EDUARDO MASCARENHAS
 
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