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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018
linguagem,
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O LADO OBSCURO DA PALAVRA
Uma das mais fascinantes aquisições da nossa espécie foi a linguagem. Mesmo dispondo de um cérebro competente e da laringe, foram necessários vários milênios para que pudéssemos construir um conjunto de sons correspondentes a objetos, seus atributos e ações.
Depois, os sons tiveram de ser transformados em algum tipo de sinal, de desempenho – precursor das palavras e, finalmente, das letras que as compõem. O que cada criança demora poucos anos para aprender nos custou muito tempo e suor para construir.
Estabelecida a linguagem, passamos a experimentar um período de grande e rápida evolução, que correspondeu aos últimos 5 mil anos de nossa história.
A transferência de informações de uma geração para outra ficou muito mais fácil devido à existência da palavra, de modo que temos acumulado conhecimento a uma velocidade cada vez maior.
Como consequência, surgiram novos conceitos e ideias, e tudo isso acabou promovendo o progresso tecnológico de que tanto nos orgulhamos.
Nossa memória foi suficiente para armazenar todo o conjunto de dados necessários para a evolução em cada setor das atividades humanas.
Essa característica de nosso cérebro pode ser estimulada graças ao desenvolvimento da linguagem, pois é por meio das palavras que os fatos e os conceitos se fixam no sistema nervoso.
A comunicação entre as pessoas também experimentou grande avanço. A narrativa literária ficou cada vez mais sofisticada.
Usando a linguagem, sabemos expressar os mais diversos estados da alma. Podemos fazer perguntas sobre as sensações do outro. Podemos conhecer suas alegrias e a razão de suas amarguras, de forma fácil e direta.
Infelizmente, parece que tudo é uma faca de dois gumes. Até agora, falamos das impressionantes vantagens que obtivemos com a aquisição da linguagem. Mas existe também o lado negativo desse processo que nos permitiu um uso mais adequado da inteligência.
Por exemplo, uma pessoa, ao perceber que será punida se outras descobrirem determinado comportamento seu, poderá tentar esconder o fato por meio das palavras.
A mentira não deixa de ser uma utilização sofisticada da inteligência, mas também é um subproduto dela por seu caráter imediatista. Pode ajudar momentaneamente. A médio e a longo prazo, leva o mentiroso a se perder, afastando-o da realidade. Sim, porque ele passa a utilizar a razão de forma menos rigorosa e precisa.
A mentira é “coisa dos espertos”, dos que querem tirar vantagem sempre. Nunca aproximará alguém da verdadeira sabedoria e serenidade. A longo prazo, não há trambique no jogo da vida.
A linguagem se estabeleceu e com ela achamos os meios para uma comunicação interpessoal extraordinariamente fácil e direta. Por outro lado, os seres humanos aprenderam a usar a linguagem para afastar o interlocutor da verdade.
Por meio da mentira, as palavras ganharam peculiaridades muito negativas. Passaram a ser utilizadas para que uma pessoa consiga se impor indevidamente sobre outra.
A comunicação foi dando lugar ao jogo de poder, à dominação, ao desejo de enganar com o intuito de obter vantagens. Em vez de perseguir a verdade, a maioria costuma perseguir a vitória.
Como distinguir a verdade da mentira? Nem sempre é simples. Nem sempre é possível fazer essa separação. Muitas vezes, teremos de lançar mão da nossa sensibilidade para captar, nos gestos e nas atitudes do outro, suas intenções.
Mesmo assim, vale a seguinte regra geral: sempre que as palavras não estiverem de acordo com os fatos, prevalecem os fatos.
Se um homem diz a uma mulher que a ama muito e a maltrata o tempo todo, consideramos o tratamento e não a palavra.
Falar é fácil e, depois da invenção da mentira, só tem valor quando a palavra vem acompanhada de atitudes que confirmem o que está sendo dito.
Flávio Gikovate
domingo, 27 de agosto de 2017
ações,
comunicação,
inteligência,
linguagem,
mentira,
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O LADO OBSCURO DA PALAVRA
Uma das mais fascinantes aquisições da nossa espécie foi a linguagem. Mesmo dispondo de um cérebro competente e da laringe, foram necessários vários milênios para que pudéssemos construir um conjunto de sons correspondentes a objetos, seus atributos e ações.
Depois, os sons tiveram de ser transformados em algum tipo de sinal, de desempenho – precursor das palavras e, finalmente, das letras que as compõem. O que cada criança demora poucos anos para aprender nos custou muito tempo e suor para construir.
Estabelecida a linguagem, passamos a experimentar um período de grande e rápida evolução, que correspondeu aos últimos 5 mil anos de nossa história.
A transferência de informações de uma geração para outra ficou muito mais fácil devido à existência da palavra, de modo que temos acumulado conhecimento a uma velocidade cada vez maior.
Como consequência, surgiram novos conceitos e ideias, e tudo isso acabou promovendo o progresso tecnológico de que tanto nos orgulhamos.
Nossa memória foi suficiente para armazenar todo o conjunto de dados necessários para a evolução em cada setor das atividades humanas.
Essa característica de nosso cérebro pode ser estimulada graças ao desenvolvimento da linguagem, pois é por meio das palavras que os fatos e os conceitos se fixam no sistema nervoso.
A comunicação entre as pessoas também experimentou grande avanço. A narrativa literária ficou cada vez mais sofisticada.
Usando a linguagem, sabemos expressar os mais diversos estados da alma. Podemos fazer perguntas sobre as sensações do outro. Podemos conhecer suas alegrias e a razão de suas amarguras, de forma fácil e direta.
Infelizmente, parece que tudo é uma faca de dois gumes. Até agora, falamos das impressionantes vantagens que obtivemos com a aquisição da linguagem. Mas existe também o lado negativo desse processo que nos permitiu um uso mais adequado da inteligência.
Por exemplo, uma pessoa, ao perceber que será punida se outras descobrirem determinado comportamento seu, poderá tentar esconder o fato por meio das palavras.
A mentira não deixa de ser uma utilização sofisticada da inteligência, mas também é um subproduto dela por seu caráter imediatista. Pode ajudar momentaneamente. A médio e a longo prazo, leva o mentiroso a se perder, afastando-o da realidade. Sim, porque ele passa a utilizar a razão de forma menos rigorosa e precisa.
A mentira é “coisa dos espertos”, dos que querem tirar vantagem sempre. Nunca aproximará alguém da verdadeira sabedoria e serenidade. A longo prazo, não há trambique no jogo da vida.
A linguagem se estabeleceu e com ela achamos os meios para uma comunicação interpessoal extraordinariamente fácil e direta. Por outro lado, os seres humanos aprenderam a usar a linguagem para afastar o interlocutor da verdade.
Por meio da mentira, as palavras ganharam peculiaridades muito negativas. Passaram a ser utilizadas para que uma pessoa consiga se impor indevidamente sobre outra.
A comunicação foi dando lugar ao jogo de poder, à dominação, ao desejo de enganar com o intuito de obter vantagens. Em vez de perseguir a verdade, a maioria costuma perseguir a vitória.
Como distinguir a verdade da mentira? Nem sempre é simples. Nem sempre é possível fazer essa separação. Muitas vezes, teremos de lançar mão da nossa sensibilidade para captar, nos gestos e nas atitudes do outro, suas intenções.
Mesmo assim, vale a seguinte regra geral: sempre que as palavras não estiverem de acordo com os fatos, prevalecem os fatos.
Se um homem diz a uma mulher que a ama muito e a maltrata o tempo todo, consideramos o tratamento e não a palavra.
Falar é fácil e, depois da invenção da mentira, só tem valor quando a palavra vem acompanhada de atitudes que confirmem o que está sendo dito.
Flávio Gikovate
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
amor,
Desejos,
Erane Paladino,
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DESEJOS FEITOS DE PALAVRA
Poeta tetraplégico constrói relação de
desejo e afeto com sua terapeuta sexual
Paralisado desde os 6 anos pela poliomielite, o escritor, poeta e jornalista Mark O´Brien só podia mexer a cabeça e passava a maior parte do dia dentro de um tubo de ferro para estimular seus pulmões. Com esses dados, parece fácil deduzir que o filme As sessões, inspirado em uma história real, apresente toques de melodrama. Mas é justamente ao afastar-se desse caminho óbvio que o diretor australiano Ben Lewin – que, aliás, assim como o personagem principal, é também um sobrevivente da pólio – promove a discussão sobre as infinitas possibilidades humanas e lembra que a sexualidade ultrapassa os limites do corpo.
A despeito das dificuldades que enfrenta, aos 38 anos O´Brien é um homem bem-humorado e criativo, embora perseguido pela curiosidade na experiência sexual. Sua formação católica – diz ser religioso “por achar intolerável não acusar alguém por tudo isso” – o leva a longas conversas com o padre da paróquia, na busca de uma autorização espiritual que o livre da culpa pelo desejo. Numa relação afetuosa e despojada, o sacerdote o apoia na árdua tarefa de perder a virgindade.
Estamos, então, no início da década de 80, uma época em que terapêuticas sexuais corporais ganham espaço. É importante lembrar que os anos 60 e 70, marcados pelo pós-guerra e pelas revoluções culturais, foram cenários de verdadeiras explosões sociais, ideológicas e artísticas. Proliferavam estudos voltados ao prazer e à liberação sexual. Autores como Masters e Johnson contribuíram significativamente para aliviar a repressão de alguns tabus arraigados e trouxeram melhora na qualidade de vida das pessoas. Na Califórnia não faltavam cursos e dinâmicas de grupo voltados à autoliberação. Nesse contexto, o atendimento com a terapeuta sexual Cheryl Cohen Greene, especializada em pessoas com sérias deficiências físicas, interpretada no filme por Helen Hunt, é indicado a O´Brien por uma professora universitária que estuda o tema.
Na vida real, Cheryl de fato fazia esse tipo de trabalho. Didaticamente, a personagem do filme esclarece não se tratar de prostituição, mas de processo terapêutico com objetivos específicos, argumentando, por exemplo, que “a prostituta busca manter um vínculo de dependência e nossos encontros têm número de sessões previamente estabelecido”. Mais que essa diferenciação, bastante questionável, chamam a atenção a atitude profissional, a busca da objetividade, o estabelecimento do contrato e os registros feitos após cada sessão. Surpreende o encontro singular e generoso entre o paciente e a terapeuta, sem espaço para a vitimização. Um laço emocional necessário se faz presente durante as sessões de sexo. À medida que olhares e toques se estendem além da fisiologia e dos fluidos do corpo, a ansiedade e a insegurança do iniciante são, aos poucos, aliviadas pela experiência. E a despeito de limitações tão explícitas, os dois constroem uma relação peculiar. “Tudo é ao mesmo tempo inesperado e natural”, descreve O’Brien.
Há mais de um século Freud preocupava-se em descrever as pulsões como forças ligadas às relações de objeto, o que faz inevitavelmente do homem um ser em relação. O que nos torna sujeitos depende da qualidade e da dinâmica dos vínculos estabelecidos desde os primeiros momentos de vida. A ideia do outro está presente mesmo na fantasia. Onde há relação, está inevitavelmente presente algum tipo de afeto. Podemos deduzir, então, que O’Brien soube encontrar em Cheryl aspectos sutis que favoreceram a vivência de empatia e intimidade.
O mundo contemporâneo tem valorizado as imagens num processo que o escritor francês Guy Debord (1931-1994) chamou de “sociedade do espetáculo”. Corpos expostos e apelos sexuais parecem banalizar o contato com o outro, num incentivo ao hedonismo vaidoso. Apesar do acesso à informação e dos apelos do sexo, as questões relativas à sexualidade e subjetividades são menos lembradas. Não é à toa que tantos autores reconhecem e destacam os contornos narcisistas e depressivos da contemporaneidade.
Em As sessões os objetivos tecnicamente previsíveis não mascaram inevitáveis ansiedades e expectativas que acompanham desejos intensos. Apesar do corpo paralisado, a vontade de experimentar permanece viva. O artigo “Encontros com uma substituta sexual”, que inspirou o filme, e as histórias de amor vividas – ou fantasiadas – por O’Brien brotam na sensibilidade de sua poesia: “Deixa-me tocar-te com minhas palavras, pois minhas mãos jazem caídas como luvas vazias, deixa minhas palavras acariciarem teus cabelos, pois minhas mãos leves, mas inertes como tijolos, ignoram minhas vontades e se recusam a realizar meus desejos mais silenciosos”.
Erane Paladino
Casais com bom relacionamento costumam usar o mesmo tipo de palavras funcionais – preposições, pronomes, artigos e conjunções – e com frequência equivalente.
Casais apaixonados ou que mantêm um relacionamento de longo prazo não raro se atribuem apelidos carinhosos ou mudam o tom de voz quando falam um com o outro. Segundo pesquisadores da Universidade do Texas em Austin, a identidade afetiva por meio das palavras não para por aí. Um estudo conduzido pelo psicólogo James Pennebaker mostra que pares “bem-sucedidos” ou com mais chances de sê-lo costumam usar o mesmo tipo de palavras funcionais – preposições, pronomes, artigos e conjunções – e com frequência equivalente. Usados em vários contextos, esses termos são, em geral, processados de forma rápida e inconsciente.
Para chegar a essa conclusão, o psicólogo reuniu 80 homens e mulheres e solicitou que cada um conversasse com alguém do sexo oposto por alguns minutos. Em seguida, questionou-os sobre a possibilidade de saírem juntos. Curiosamente, os pares que usaram tipos similares de palavras funcionais se mostraram mais inclinados a marcar outro encontro – mesmo aqueles que declararam não ter muitos pontos em comum.
Em outro estudo, Pennebaker analisou o conteúdo de mensagens de celular enviadas por 86 casais e perguntou aos voluntários quão felizes eles se sentiam com o compromisso assumido. Três meses depois, o pesquisador verificou se os pares ainda estavam juntos. Ele observou que os pares estáveis eram os que trocavam torpedos com mais palavras funcionais em comum. O curioso é que isso se aplicou também a quem declarou estar insatisfeito com o companheiro, na primeira fase da pesquisa.
Agora os pesquisadores querem entender se o vocabulário em comum provoca atração ou se na verdade as pessoas adaptam sua forma de falar, ficando parecidas com o outro. Os dois processos são possíveis, mas Pennebaker acredita que o último seja mais provável: “A linguagem prediz o sucesso dos relacionamentos porque reflete a forma como os casais ouvem um ao outro e se entendem”, reforça o psicólogo.
Universidade do Texas, Austin.
terça-feira, 7 de maio de 2013
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reflexão,
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UMA PALAVRA SOBRE A PALAVRA VIDA
Por uma teoria do estado de exceção na linguagem
No atual estágio histórico em que pensamento e moral compõem dois lados de uma única banda torna-se impossível ler, dizer ou ouvir a palavra vida sem cuidado filosófico – pelo menos para quem deseja ser justo com o conhecimento preservando, pela busca, a possibilidade de sua realização. Não é possível alegar ingenuidade sobre a questão quando o termo vida foi capturado por toda sorte de ideologias, o que exige que sobre ele se opere uma desmontagem crítica. A disputa sobre o termo vida corresponde na ordem do discurso ao que para além do discurso se dá com a própria vida que, sob a palavra, é ocultada. Não querendo reeditar apressadamente nenhum nominalismo como crítica do discurso, é necessário hoje prestar atenção se já não estamos vivendo uma nova era nominalista em que a posse do nome define a posse sobre a possível verdade das coisas. Quem sabe o que é a vida como uma verdade para além de todas as possíveis definições? Esta verdade talvez não exista, mas aquele que a controlar saberá do seu império no tempo. Por isso, muitas disputas conceituais hoje, na verdade são disputas políticas. Saber é poder mais uma vez. Hoje, porém, poder, mais que nunca, é dizer. Quem não souber das disputas ideológicas corre o risco de parar de pensar por conta própria ao simplesmente aderir a falas prontas facilmente encontráveis no mercado das crenças.
A vida, portanto, precisa hoje, ser analisada como uma questão de discurso. A captura da palavra vida - sabem os que manipulam o discurso ou dele se valem num contexto comunicativo – define a intenção da captura da própria vida. Da vida enquanto é capturada pela palavra como ordem simbólica que impera sobre o real. A relação entre as palavras e as coisas ainda está na ordem do dia. Em outras palavras, quem puder definir vida, saber-se-á seu dono e senhor, assim dos poderes a ela associados. A tarefa hoje é reler a palavra buscando entender em que medida ela se tornou lugar da verdade sobre a qual sempre se disputa no discurso.
O poder do discurso, entendido como fala pré-estabelecida em nome da verdade, advém de seu ocultamento como tal. Em outras palavras, fala-se da vida como se estivesse a falar da própria coisa, e não de uma palavra que, ela mesma, é já conceito e, como tal, sempre elaborado, re-elaborável e passível de discussão. A palavra, por mais que se agregue à coisa, que se diga em nome de algo, não é a própria coisa à qual alude ainda que as próprias coisas precisem dela para chegar à cultura. Por isso, nos dias atuais, enganamo-nos ao discutir a vida – este amplo e inespecífico conceito que vai da natureza à cultura, da mera vida às suas formas e que como idéia é aquilo dentro do que estamos. Disputamos quem vence no contexto da crença para saber quem deterá o poder dos que podem crer (seja no que for que creiam, na ciência ou na religião). A pergunta a ser feita neste momento histórico é – para além do sexo dos anjos, da alma das mulheres ou da “vida” dos embriões – se poderíamos discutir o conceito de vida sabendo que se trata apenas de um conceito e, assim, ultrapassar a retórica e o desejo de persuadir e libertar a verdade à qual apenas uma disputa honesta de conceitos poderia nos levar. A questão seria precisar em que sentido a palavra é usada a cada vez que, como uma bandeira, é erguida em nome de guerra ou de paz.
Por isso, é preciso falar com cuidado e pressupor o próprio ato de fala como algo que merece análise. Portanto, usar a palavra vida supondo a ingenuidade de quem não imagina o seu lugar entre outros tantos conceitos é má-fé. Não é possível participar de uma discussão sem demonstrar o pressuposto a partir do qual se fala. Ninguém pode pensar filosoficamente, ou seja, em sentido analítico e crítico, ou dialético e crítico, sem definir com máxima exatidão o uso do termo que, historicamente, se constrói como um conceito dos mais complexos e sobre o qual as disputas mais acirradas se travam. Supor esta ingenuidade ou falar a partir dela é sempre a primeira estratégia de quem, cinicamente, não quer se enfrentar com argumentos, de quem quer afirmar suas idéias pondo-se como inimputável numa disputa. Quando digo a outrem que sei o que é vida enquanto ele não sabe, se afirmo que detenho a verdade sobre um conceito enquanto ele não, estou falsificando o meu próprio lugar como sujeito de discurso, que se afirma a partir de pressupostos culturais e formais que organizam o discurso. Se afirmo que sei imediatamente o que é a verdade, já me coloco como seu possuidor e exijo uma postura de atenção. A mesma atenção que me esquivo de ter com a possível postura de outrem. A melhor arma numa disputa em que algum nível retórico está em jogo nem sempre é a autoridade, mas a ignorância. Esperto é quem sabe usar a postura do burro como plano de argumento.
A palavra “vida” encontra-se neste lugar especial na atualidade, lugar que, a qualquer momento, é ocupado por qualquer palavra com a qual se deseje entabular a verdade. A questão hoje apenas pode ser refletida por uma teoria do “Estado de exceção da linguagem” por meio da qual se investigue o modo como se pretende, na ordem do discurso, se capturar a verdade e decidir sobre ela por meio da captura de uma palavra. O poder do discurso situa-se na palavra tomada como arma de decisão. Ao sacralizar a palavra “vida”, afirmando que falar dela ou contra ela é uma blasfêmia ou heresia, espera-se sacralizar a própria vida à qual a palavra se refere como se, por meio da palavra, já se tivesse decidido sobre a coisa.
Apenas uma teoria organizada sob a tese de que a linguagem, como parte de toda estrutura política, está sitiada por uma ordem que oculta seu próprio funcionamento, que a linguagem, como o corpo está “capturada fora”, incluída e excluída como no mesmo mecanismo do estado de exceção, é que se compreenderá o que se diz e o que se quer com isso ao pronunciar a palavra vida.
Ela está na ordem que faz do discurso a verdade. Duas posturas são visíveis nos dias de hoje. A daqueles que ainda enfrentam o potencial conceitual da palavra, o que se pode dizer por meio dela, ou o que ela pode significar em relação ao real. Tratam da palavra vida como uma palavra junto de outras. Compreendem-na como inserida na ordem do discurso à qual é preciso sempre prestar atenção. Por outro lado, há aqueles que falam dela como uma exceção.
MÁRCIA TIBURI
Links: PCdoB x MILICIANOS
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