Saia pela manhã bem cedo puxando com os próprios braços sua fiel companheira. Uma carroça que insistia em chamar de burro sem rabo. Por ser criança não entendia as razões que levavam meu avô a dar esse nome para a carroça que o acompanhava em seu dia a dia de trabalho.
Quando perguntava,Vô por que burro sem rabo?
Com o suor pingando do rosto ele respondia rindo:
- Porque é o burro que vai na frente.
E seguia o caminho puxando a carroça, sorrindo e catando ferro.
Muitos se obrigados ao trabalho do meu avô sentiriam vergonha, no entanto ele chegava até a se divertir. E eu mais ainda quando era carregada por ele, era como brincar de carro.
No fim da tarde vô João sempre voltava para casa com alguma história nova para contar. Perdi as contas de todos os "causos" que ouvi e das risadas dadas sentada na varanda enquanto minha avó preparava o café.
Esse homem foi boia- fria, cortador de cana, mineiro, carroceiro catador de ferro, pipoqueiro...
Viveu lamentando por não ter tido oportunidade de estudar ao longo da vida. Não queria passar para seus filhos e netos o legado de assinar documentos com o polegar. Sua única vergonha confessada.
Infelizmente vô João faleceu sem aprender a ler e eu estou aqui escrevendo para vocês.
Para aqueles que medem o valor das pessoas apenas pelo que elas possuem (dinheiro) meu avô foi somente o seu João do ferro velho, ou no máximo, um burro de carga, mas para mim ele é um grande exemplo de dignidade, assim como muitos outros brasileiros desprezados pelas classes sociais abastadas.


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