2c6833b0-77e9-4a38-a9e6-8875b1bef33d diHITT - Notícias Sou Maluca Sim!: DEIXAR DE SER RACISTA, MEU AMOR, NÃO É COMER UMA MULATA!
segunda-feira, 18 de novembro de 2013

DEIXAR DE SER RACISTA, MEU AMOR, NÃO É COMER UMA MULATA!

Considerações sobre elogios racistas


Elogio racista é toda demonstração de admiração, afetividade ou carinho que se concretiza por meio de ideias ou expressões próprias ao racismo. Com ou sem a intenção de, que fique bem claro. Um dos mais conhecidos é o famoso “negro de alma branca” que nossos antepassados tanto ouviram. Mas não são apenas nossos homens que conhecem muito bem os elogios racistas. Nós mulheres negras também somos agraciadas com esses pequenos monstrinhos, usados inadvertidamente por amigos, familiares. Muitas vezes até por nossos parceiros.
Decidi fazer uma lista com 5 elogios racistas (e sexistas, diga-se de passagem) que muitas de nós escutamos quase que diariamente. Alguns são consenso, acredito. Outros nem tanto. Fico aguardando ansiosa para que você, mulher negra, deixe seu comentário dizendo se também acontece com você. Se concorda, se discorda. E sobretudo, o que você faz para deixar bem claro que o elogio racista pode ser tudo, menos bem-vindo e apreciado.

Adriana Alves é atriz e frequentemente é chamada de morena

01. “Você é uma morena muito bonita”

Esse é o elogio racista que mais escutei em toda minha vida. Minhas primeiras lembranças são do tempo da escolinha. Mesmo mulheres como Adriana Alves ainda são chamadas de morenas, pois se acredita que chamar alguém de negra é uma ofensa racial. Se você precisa se expressar, tente um simples “você é bonita ou atraente”. Ou ainda “você é uma negra linda”, o que, dependendo do contexto pode ser tão ruim quanto.
Mas em hipótese alguma diga que uma negra é morena, moreninha, morena escura. Que não é negra. Isto sim é racismo dos graúdos, pura e simplesmente. Quando acontece comigo, digo que não sou morena e nem moreninha, sou n.e.g.r.a. O bom é que, dependendo de como essa resposta é dada, a pessoa já se toca que ela não deveria ter começado o conversê, que simplesmente não estou disponível para esse tipo de diálogo. Nem com conhecidos, muito menos com estranhos.

meu cabelo. Foto Afrobella.

02. “Seu cabelo é muito bonito, posso pegar?”

Há alguns anos atrás, uma senhora ultrapassou todos os limites de uma convivência pacífica ao se aproximar de mim, cheia de dedos, me tocando sem permissão e dizendo que eu tinha uma “peruca muito bonita”. Não retruquei de caso pensado, antecipando seu constrangimento por jamais ter cogitado que uma mulher negra pudesse ter um cabelo comprido, ao natural. Minha vingancinha, e sou dessas, foi olhar aquela expressão de arrependimento por ter percebido o que fez.
Entendo que simples visão de uma negra com cabelo natural pode ser inebriante. Que persiste a completa desinformação sobre o nosso cabelo. Porém, isso não justifica o toque sem permissão. Não importa se é cabelo natural ou não. A menos que você conheça muito bem a pessoa, não toque em seu cabelo sem consentimento. Eu iria mais longe. Para mim a boa etiqueta simplesmente reza que não se deve nem mesmo pedir para tocar o cabelo de uma pessoa desconhecida.

Alek Wek também é uma modelo de traços delicados

03. “Você tem os traços delicados”

Dizer que uma negra tem traços “delicados” muitas vezes tem a ver com a ideia de que será bonita se tiver uma expressão “fina”, leia-se semelhante a de uma pessoa branca. Como se determinado tipo de nariz (ou bochechas) fosse exclusivamente dessa ou daquela etnia. Uma de suas variantes é outra expressão igualmente racista – “você é uma mulher negra bonita” – algo que ao meu ver é a mesma coisa de dizer que “você é bonita para uma negra”.
Afinal, qual a dificuldade de dizer que uma mulher negra simplesmente é… Uma mulher bonita? Porque Alek Wek tem de ser descrita como uma “mulher negra bonita” enquanto as mulheres brancas são apenas “mulheres bonitas”? Mais uma vez, toda a sutileza do elogio racista. Ele reconhece que você é uma pessoa admirável, mas sempre fazendo questão de te colocar “no seu lugar”, como se algumas fronteiras jamais pudessem ser cruzadas.

Cena de Vênus Negra, de Abdellatif Kechiche


04. “Você tem a bunda linda”

Essa é uma opinião que certamente não é unânime. Faço questão de expressá-la como uma provocação que representa o pensamento de uma parcela significativa de mulheres negras. Para muitas de nós, esse comentário expressa a hipersexualização a que somos historicamente submetidas como exemplifica a triste biografia de Saartjie, denominada a Vênus Hotentote, exposta como atração circense em função da admiração que suas nádegas causaram na Europa do século XIX.
Apesar de todo respeito que tenho por tudo aquilo que acontece entre duas pessoas, preciso considerar a tradição racista secular desse tipo de discurso. Trata-se de reduzir a mulher a um pedacinho do seu corpo, desconsiderar sua humanidade, transformá-la num pedaço de carne exposto no açougue como aconteceu e acontece diariamente. Meu conselho é pergunte antes se a mulher a quem você pretende cumprimentar tem a mesma leitura desse tipo de elogio.

Mulata do Leandro de Itaquera

05. “Você é uma mulata tipo exportação!”

Esse elogio ainda o tratamento dispensado à mulher negra no seio da senzala, da casa grande. O pensamento que nos reduz em brinquedos sexuais. Dizer que uma mulher negra é uma “mulata tipo exportação” é esquecer uma tradição escravocrata secular, que transforma a mulher negra em “peça” que alcançará boa cotação no mercado onde a carne mais barata é a nossa. O nome desse mercado é exotificação. Em alguns casos, hiperssexualização.
Infelizmente também estamos falando sobre o modo racista com que as mulatas de escola de samba, mulheres que respeito e admiro, são mostradas e consumidas. Mulheres que levam o samba no pé, no sorriso, na raça. Que, ao invés de serem uma referência de beleza, são vendidas como frutas exóticas na temporada do carnaval. Mulheres que recentemente tem sido preteridas por “personalidades da mídia” em nome de uma pretensa “democracia racial” e muitas vezes com a anuências de algumas agremiações.
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Qual é a sua opinião?

Porém, preciso dizer que os elogio racistas podem (e devem)  subvertidos. Quando o assunto são as mulatas de quem já falei aqui, isso é bastante evidente. Ser uma mulata exportação também atesta um padrão de excelência e traduz qualidades como perseverança, força. Minha professora de dança adora dizer que a graça de uma bailarina é diretamente proporcional à sua força. Mulatas são a expressão mais concreta desse enunciado.
Por isso fiz questão de usar como título desse post, um trecho do poema de Elisa Lucinda, Mulata Exportação, que resume tudo o que tentei dizer até aqui: “deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata” como muita gente gosta de pensar. E acrescento, “opressão, barbaridade, genocídio, nada disso se cura trepando com uma escura!”. Muito menos tecendo elogios racistas, diga-se de passagem. Quem o diz é a mulata exportação do poema. Sou eu, somos todas nós que já ouvimos essas porcarias.

Confesso que essa lista tem algo de muito pessoal, cujas entrelinhas tem muitas dedicatórias alimentadas por ironia. Nem por isso menos pertinente. Por isso adoraria ouvir a opinião de vocês. Esqueci algum elogio racista que te incomoda? Que te fez espumar de ódio, revirar os zóios e dizer algumas verdades? Você também acredita que esse tipo de comentário, como tudo aquilo que é racista e preconceituoso, diz muito sobre a pessoa que o faz do que sobre a pessoa a quem se destina?

Me conta!



Por Charô Nunes

17 comentários:

Marcos Pereira disse...

O racismo ainda está em nossa cultura, porque ainda vemos e julgamos as pessoas pela aparência e não pelo seu caráter...
beijão!

Residenci-lar disse...

o racismo e uma coisa quase que pessoal! dizer que e uma linda mulata ou negra não e racismo! qual a diferença em dizer mulata loira ou morena negra japonesa chinesa árabe ou seja la como for, acho que o que querem e chamar a atenção! pois se estou com raiva eu chingo! se estou felis eu brinco, se estou apaixonada eu uso termos carinhoso! ja sentir sim o preconceito na pele, preconceito por eu ser pobre! ja sentir preconceito por eu ser mãe solteira! ja sentir preconceito por mora em um determinado bairro! mais eu tiro de letra ponho a pessoa no seu lugar merecido o da falta de vergonha de criminosa! esse negocio de cotas de feriado disso ou daquilo e so um meio do governo e governantes fazer uma media com seu povo, e se esse povo estiver separados por dogmas ou raça fica mais fácil ser ludibriados o povo separado fica mais sensível e isso que eu penso!

Edson Cláudia disse...

Muito legal este texto,

Simone Urbano disse...

Durante uma vida inteira sempre ouvi essas: "Você é morena e não negra" ou " Nossa você é uma negra inteligente".rss Além de negra sou pessoa com deficiência desde o nascimento então você pode imaginar os motivos de sobra dos pseudos preconceitos alheios que sofri e passo...rs. Fui preparada por pai e mãe desde a infância a lidar com essas questões e saber me impor quando ocorria um novo preconceito. Claro que não foi fácil mas, quando temos um entendimento do porque das coisas desde nova, da sua origem, história,cultura,genética e o amor que você sente pela vida e Deus e familia e amigos por voce,a caminhada fica mais leve e seguimos enfrente sem abaixar a cabeça (com educação é claro) mas, seguimos.

Anônimo disse...

E a expressão: tem um negão te comendo, ou te pegando. Já vi muita gente usando isso é nunca vi referência a racismo.

Mica Carol Santos disse...

Gostei sim, e a primeira sempre escuto bastante e somente um vez corrigi alguém do resto eu sempre deixo pra pq sei q a intenção não foi maldosa, mas seu texto me fez encorajar pra começar a "educar" as pessoas pra me chamarem de NEGRA por favor!!!

Anônimo disse...

http://www.geledes.org.br/larissa-12-anos-esta-em-tratamento-psiquiatrico-sofria-ofensas-raciais/#gs.3oo=x04

Anônimo disse...

Excelente texto. Sempre tem alguém comentando sobre o meu cabelo. Estranhos pedindo pra tocar. E nem tenho tanto cabelo assim. Antes, não via essa atitude como racismo, agora percebo que é sim. Meu cabelo não é exótico. É o cabelo de uma mulher negra.

Fazendo Arte disse...

O racismo é estruturante e institucional em nossa sociedade que venha muita educação e ações afirmativas , a mulher coisificada neste contexto é a que mais sofre pq é preterida pelos homens negros e desejadas como objeto pelos brancos. E VAMOS ESTUDAR, NOS INFORMAR E LER: Mulheres, raça e classe de Ângela Davis.

Sandra Nascimento disse...

Minha resposta depende da minha vontade de discutir e da capacidade que vejo no "abençoado" de entender o recado... mas geralmente uso o que "eles" adoram chamar de "Racismo Inverso". Ou sou grossa mesmos. "Eles" acabam entendendo rápido! Por exemplo: querem mexer no meu cabelo... com aquela cara de que virão a coisa mais exótica (palavra que gostam muito de usar) do mundo... minha resposta: não! Agora não estou aberta a visitação!!
Pro "vc não é tão negra assim": "mas vc é branca pra caralho, né? Não entendo pq te chamam de morena!"
Pro "Mulata" eu ja ignoro, pois odeio essa palavra!! Ai ja explico o significado desta merda no feminino. Ai ja vira discussão pois não acreditam... bla bla bla...
agora se não to a fim de explicar ou discutir, simplismente peço com toda a educação do mundo: por favor, não faça (ou não toque) nunca mais isso... obrigada (viro as costas e saio e deixo "o abençoado" ficar pensando o q quiser).
Digo isso pois lembro de uma frase de uma entrevista de Glória Maria..."as pessoas não querem entender... então pra que explicar".
Eu ja meto a grosseria e corto o assunto!
Bjos e obrigada pelo texto!!

Sueli Su disse...

Já sofri com tudo isso, fui comissária de bordo por muito tempo, quer coisa pior do que ouvir nunca vi uma aeromoça negra ou qual a sua decendência vc tem traços muito fino, o morena nem se fala...muito complicado.

Sueli Su disse...

Já sofri com tudo isso, fui comissária de bordo por muito tempo, quer coisa pior do que ouvir nunca vi uma aeromoça negra ou qual a sua decendência vc tem traços muito fino, o morena nem se fala...muito complicado.

Merjory Florencio disse...

Foda! "Você é uma morena bonita", "Você não é negra, você é morena", "Globeleza". Socorro!

Merjory Florencio disse...

O termo "mulata" já nem deveria ser mais utilizado, isso por si só já é historicamente racista. Quanto ao "tipo exportação", isso faz parte de todo o imaginário social nacional: "eles (os estrangeiros) gostam, né"? Como se fôssemos coisas e pra piorar, coisas para serem consumidas por estrangeiros, não servimos para nos relacionar afetivamente com os homens brasileiros. Ainda tem os comentários hiperssexualizantes como "é verdade que as negras são mais quentes"? "Você também é quente". Ódio define o que senti/sinto nesses momentos.

Merjory Florencio disse...

Existe uma diferença abismal aí, justamente pelo fato de as pessoas ainda não entenderem, reconhecerem, aceitarem que existem mulheres negras bonitas. Ninguém diz que uma mulher branca é uma "branca bonita", é simplesmente uma mulher bonita. Quanto á separação, vivemos num país de maioria negra onde o protagonismo negro é nulo em todos os setores de estado. Num país que para para colocarmos um/a nego/a numa capa de revista ele/a precisa se chamar "Raça", ou seja, algo específico para nós justamente por não sermos vistos simplesmente como pessoas; durante anos, para uma negra participar - eu nem falei em ganhar - mas, apenas para participar de um concurso de beleza ele tinha de ser concurso "de beleza negra". Eu poderia passar o resto da vida citando exemplos de como sempre estivemos separados, à margem... as favelas não surgiram por acaso, as favelas tem cor e a cor é preta.

Helena de Lamare disse...

"Como é talentosa aquela atriz negra!","Tenho amigos negros!"...
Como é talentosa aquela atriz!,Tenho amigos!

Anônimo disse...

"Como aquela atriz negra é talentosa!"
"Eu tenho amigos negros."
Isso também é racismo!Por que não :
Como aquela atriz é talentosa!
Eu tenho amigos.

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Obrigada pela sua opinião e um grande abraço de Jaqueline Ramiro/blog Sou Maluca Sim!

 
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