2c6833b0-77e9-4a38-a9e6-8875b1bef33d diHITT - Notícias Sou Maluca Sim!: História das palavras: o Canto do Cisne
segunda-feira, 21 de outubro de 2013

História das palavras: o Canto do Cisne


 

De Sócrates aos dias de hoje, a expressão perpetua um engano

O “canto do cisne” é o último testemunho de um homem, a última obra de um artista, a declaração final de um poeta antes de morrer. Essa expressão tem sua origem na Antiguidade, com o filósofo Platão, que põe em palavras os últimos instantes da vida de Sócrates, por meio do diálogo Fédon. Condenado à morte pela cidade de Atenas em 399 a.C., sob a acusação de “corromper a juventude e introduzir novos deuses”, Sócrates foi chamado por seus discípulos para tomar a palavra.
O grande filósofo, com 70 anos de idade, teria declarado, antes de tomar o veneno mortal – a tristemente famosa cicuta –, que ele desejava realmente responder uma última vez, pois não se sentia invadido por pensamentos sombrios.

Sócrates se compara aos cisnes que lançam um último canto antes de sua morte: “Quando sentem a hora da morte se aproximar, essas aves, que durante a vida já cantavam, exibem então o canto mais esplêndido, o mais belo; eles estão felizes de ir ao encontro do deus do qual são os servidores. (...) Eu, pessoalmente, não acredito que eles cantem de tristeza; acredito, ao contrário, que, sendo as aves de Apolo, os cisnes possuam um dom divinatório e, como pressentem as alegrias que gozariam no Hades, cantam, nesse dia, mais alegremente do que nunca”.

Qualquer que seja a veracidade dessa afirmação socrática, visto que foi diversas vezes assinalado pelos ornitólogos que essas aves não produzem nenhum canto melodioso, a literatura se apossou dela e construiu esta expressão, o “canto do cisne”, que se perpetuou. Ela entrou para o Dictionnaire de l’Académie Française em 1762.
A metáfora já se encontrava em 1604 em Otelo, de Shakespeare, quando Emília, sua heroína trágica, no momento da morte, grita: “Ouça! Você pode me ouvir? Vou fazer como o cisne e morrer cantando...”.

No início do século XIX, o editor de Schubert deu o título O canto do cisne a uma coletânea póstuma de 14 Lieder de tonalidade bastante melancólica, pois ele os considerava o testamento musical do artista. Quanto a Tchekhov, ele escolheu esse mesmo título para sua peça publicada em 1886. Ele coloca em cena o personagem de Svetlovidov, corroído pela doença e pela nostalgia, propondo uma última interpretação magistral dos papéis principais de sua vida para encerrar a carreira de ator.

Essa expressão, que permite imaginar as últimas palavras ou os últimos instantes de criação artística, se apossou em seguida de outros universos; ela foi retomada particularmente pelos jornalistas para qualificar as reformas de um homem político em fim de mandato ou a última invenção tecnológica de uma empresa ultrapassada pelos concorrentes.

(Revista História Viva, por Sonia Darthou mestre de conferências da Universidade de Évry-Val-d’Essonne)

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1 comentários:

Angelita de Souza Moreira Barbosa disse...

Muito interessante adorei o artigo.

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